Moda e cavalos: Isabela do Valle, designer da marca Dressur

Isabela do Valle é designer de moda e criadora da marca Dressur, que veste as pessoas do hipismo dentro e fora das pistas. Abaixo uma entrevista com essa estilista, que também pratica hipismo e é uma apaixonada por cavalos.

1 – Além de ser estilista você é uma amazona da modalidade adestramento. Como começou a relação com cavalos e com o esporte?
Eu convivo com os cavalos praticamente desde que nasci, pois minha irmã, 10 anos mais velha que eu, também é viciada em cavalos desde sempre e me levava com ela. Nosso quarto tinha toda a decoração baseada em cavalos para todos os lados, os cadernos e agendas, livros e brinquedos de cavalos, enfim, totalmente loucas por cavalos. Eu comecei a montar esporadicamente com 5 ou 6 anos, aos 10 eu comecei a montar todos os dias e a competir na modalidade salto. Cresci num Clube Hípico do Rio de Janeiro, a melhor infância que eu poderia desejar.

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Isabela e seu cavalo no Campeonato Brasileiro de Adestramento 2015 (Foto: Ambar Dressage)

2 – Onde monta? Qual é a raça do seu cavalo e como ele se chama?

Eu monto num haras, em meio à natureza que fica  próximo de São Paulo, o Vale do Aretê, onde se cria principalmente cavalos Friesians e Lusitanos. Tenho dois cavalos, meu Doriel, que está aposentado com 22 anos e é tratado como meu pet (rs), um ex-atleta de CCE, que foi quem me iniciou no Adestramento, ele é Anglo-Árabe. E o meu cavalo atual de provas de Adestramento, o Puro Sangue Lusitano, Zephiro da Raposa, com quem estou competindo no nível São Jorge, atualmente.

Dressur
Zephiro da Raposa

3 – Quais foram seus maiores feitos como amazona?
Esse ano fiquei muito feliz em conquistar o Campeonato Brasileiro com o Zephiro da Raposa no Amador Top e em ficar em primeiro lugar no Ranking de Adestramento da Confederação Brasileira de Hipismo. Tenho três títulos de Campeã Brasileira, dois títulos de vice-campeã brasileira, quatro títulos de campeã Paulista, um título de vice-campeã Paulista e alguns Troféus Eficiência. Adoro competir.

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Isabela do Valle com seu lusitano na premiação em um CAN (Foto: Jane Monteiro)

4 – Onde se formou em design de moda? Conte um pouco do início de sua carreira de estilista?
Eu sempre tive essas duas paixões, os cavalos e a Moda. Com 18 anos eu e um amigo nos inscrevemos de brincadeira para um projeto no Mercado Mundo Mix, e enviamos alguns croquis, sem termos praticamente nenhum conhecimento de Moda mais profundo. Era uma lista de espera de dois anos para ter um stand na maior feira de moda do Brasil nos anos 90, mas eles adoraram nossos desenhos e assim, de repente, eu virei estilista e nós resolvemos criar uma marca. Eu gostei tanto que comecei a fazer a Faculdade de Moda, do Instituto Zuzu Angel-UVA, no Rio de Janeiro. Logo que entrei, fiquei sabendo que eles tinham um projeto com uma Faculdade de Moda de Paris e que no fim do curso iam escolher um aluno para ganhar uma bolsa de estudos. Pois bem, eu coloquei na minha cabeça que eu poderia ser escolhida e que queria muito aquela bolsa e aquele curso, e me matei de estudar tudo de Moda, Artes e da Língua Francesa pelos anos seguintes. Fiz uma coleção na ocasião da minha formatura e fiquei muito feliz, pois fui a escolhida. Ganhei a bolsa de estudos na ESMOD- Paris e também as passagens de avião.

Foi duro, mas maravilhoso para uma apaixonada por moda como eu, estar estudando em Paris, em uma das principais e mais antigas escolas de moda do mundo.

Lá eu consegui alguns trabalhos na Semana de Moda de Paris, nos desfiles. Em seguida tive uma das experiências mais incríveis da minha vida quando fui estagiar na Maison do John Galliano, na época do seu auge e quando trabalhava também para a Dior. Foi realmente incrível, aprendi muito no centro da moda de luxo do mundo. Um sonho.

Depois que acabou o curso, eu preferi voltar para o Brasil e logo vim para São Paulo onde o mercado de moda estava bem melhor. Trabalhei com dois estilistas da SPFW e depois achei que estava pronta para um voo mais alto. Fui trabalhar em empresas maiores, de Fast Fashion, primeiro passei alguns anos na Riachuelo e depois eu entrei na multinacional C&A, onde tive a sorte de trabalhar no setor de licensing. Dessa forma pude trabalhar diretamente com outras empresas internacionais importantes como Mattel, Disney e Warner, que foram fundamentais no meu aprendizado e know how.

Enfim, quando eu achei que estava preparada, me equipei do meu conhecimento e muita coragem para fundar a Dressur, que está no mercado de Moda desde 2009.

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Croquis Dressur

5 – Desde o início de sua carreira na moda você já sabia que iria desenhar roupas para as pessoas do cavalo? E como é ter clientes que assim como você são apaixonados por equinos?
Eu sempre quis juntar as minhas duas paixões, mas no começo de carreira parecia um sonho distante. É muito bom ver que sonhos são possíveis, com muito trabalho e persistência.

É maravilhoso desenhar para as pessoas com as quais me identifico e que amam os cavalos. A gente sabe que nasce com isso correndo nas veias e que vai amar os cavalos para sempre. É inexplicável. Algo que se sente e não se define.

6 –  Qual é seu ídolo no hipismo? Qual é a pessoa que te inspira na moda?

Tem  várias pessoas que admiro, muitos cavaleiros, de todas as modalidades e muitos estilistas. Acho que na moda considero como ícone a Coco Chanel, não só por ter revolucionado a moda e a sociedade em si, mas também pelo seu amor pelos cavalos. Como não amar uma mulher que colocou a calça para mulheres na moda, para poder montar com mais conforto igual aos homens? Ela foi um gênio da nossa era, uma daquelas pessoas que mudam o mundo.

7 – O que os cavalos representam para você?
Sinceramente são a minha vida, eu nunca vivi e nunca vou conseguir viver longe dos cavalos. Fazem parte da minha alma.

8 – Como é sua rotina e como consegue conciliar o treino de adestramento com o trabalho em seu atelier?
Digamos que não sobra muito tempo para outras coisas que não sejam cavalos ou moda. E ainda arrumo tempo para treinar na academia também, acho essencial para todo cavaleiro. Quem tem negócio próprio não tem horário, fim de semana, feriado. Mas quando a gente é apaixonada pelo que faz é um grande prazer trabalhar.

9 – Se você não fosse estilista, que outra carreira escolheria?
Acho que viveria como amazona. Ou talvez professora de educação física, ou qualquer profissão ligada às artes.

10 – O que você acha de pessoas que não praticam hipismo, mas usam roupas inspiradas no estilo hípico?

Eu acho que o estilo equestre já é um clássico da moda. Há séculos utilizam-se elementos de montaria para vestimenta de quem não é cavaleiro, afinal nosso esporte é o mais elegante que existe.

A moda equestre carrega toda essa elegância, e no fundo, o sonho de quem utiliza aquela roupa de sentir o que é ser uma amazona ou cavaleiro. Moda nunca é tão simples quanto parece. Ela é carregada de signos psicológicos, muitas vezes não tão óbvios. Ela é a síntese da expressão da sociedade num devido tempo ou época. Por isso é tão importante à análise da História da moda para se entender qualquer Era ou povo.

11 – O hipismo é um esporte clássico e que tem tradição nas vestimentas. Você acha que os atletas equestres atuais continuam mantendo a elegância do passado, ou essa cultura está se perdendo com o uso de roupas mais confortáveis e tecnológicas?
Essa é uma pergunta muito interessante. Em dado momento, pareceu que sim. Falou-se até em retirar as tradicionais casacas e fraques, e introduzir cores vibrantes nas vestimentas dos cavaleiros. Porém, não podemos esquecer que a moda é cíclica. A Moda é Moda, e por isso é fascinante. Quando tudo caminhava para a tecnologia houve um movimento de retorno ao clássico, liderado principalmente por alguns cavaleiros de salto, como John Whitaker e Edwina Alexander. Este movimento na verdade era uma declaração de amor pela equitação clássica. A moda foi usada como expressão pessoal, foi um statement de que “Não importa o quanto a tecnologia avance, nossa equitação é clássica e sempre vai ser baseada nas tradições”. E o vestuário do cavaleiro é peça essencial nessa tradição, ele é parte da equitação em si, mostra o estilo do cavaleiro, sua postura, e até  quanto tempo ele vive no meio, é também sua forma de expressão, ainda que muitas vezes inconsciente. Portanto agora há um movimento de junção das duas tendências, de procurar fazer uma roupa equestre que seja confortável, com tudo de melhor que a tecnologia possa oferecer, mas mantendo sua aparência com raízes tradicionais. Mas a moda muda. E a tendência amanhã pode ser oposta, e depois mudar novamente, e isso que é o melhor, nunca é estática.

Isabela do Valle
Amazona estilista comemorando uma de suas vitórias no hipismo

12 – Qual é peça coringa uma amazona ou um cavaleiro deve ter em seu guarda-roupa?
Acho que não devem ficar sem uma bela e confortável camisa polo e uma casaca de caimento impecável que realce sua postura a cavalo. A casaca pode acabar com seu treinamento de anos, comprometendo sua postura ou ajudar a disfarçar aquele defeitinho que você tem dificuldade em corrigir.

13 – Deixe aqui uma dica para quem quer arrasar no look equestre.
Seja você mesmo, traduza seu estilo pessoal para a equitação, sem pensar tanto em modismos, mas não esqueça as raízes clássicas do nosso esporte que são parte essencial dele. Hipismo é tradição e elegância, roupas com bom caimento e conforto antes de tudo.

Confira os produtos da Dressur no site. www.dressur.com.br

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