Cavalo de férias

O conto desse mês por Neyd Montingelli é uma carta escrita por uma amazona para seu cavalo.

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Oi meu querido,

Como é difícil deixar você ir. Será que você sentirá a minha falta tanto quanto eu vou  sentir a sua?

Você entrando naquele caminhão, tentando voltar, nervoso, não querendo obedecer ao seu tratador, aquelas cordas, aquele barulho. Deu-me um aperto no coração!

Parecia que o estavam levando para um matadouro, que eu nunca mais iria ver o meu amado. O motorista garantiu que TODOS os cavalos fazem assim. VOCÊ não é igual a todos, eu não sou dona de todos, não me interessa o que os outros fazem (bem, um pouco, porque não sou insensível) e afinal EU ESTOU VENDO!

Depois que você estava lá dentro fiquei mais aliviada. Vi que ficou calmo e que o caminhão era confortável, mas aquela cena nunca mais quero ver. Parecia que você estava indo para o cadafalso.

Bem, você foi. Que vazio. O que vou fazer sem você?

Todo dia eu venho aqui e o que mais gosto é entrar pelo corredor das baias, lá no começo e chamar pelo seu nome. E quando você está solto na sua baia então? Coloca sua linda cabeça para fora da baia, faz barulho, relincha, bate no chão quando me escuta, reconhece a minha voz. Quanta emoção! Quanta emoção!

A minha vontade é sair correndo feito uma louca e pendurar-me no seu pescoço e enchê-lo de beijos. Mas, não posso, você não é um cachorrinho. Tenho que me conter por dois motivos: primeiro que você também fica contente e por isso ao extravasar sua alegria, devido ao seu tamanho, podemos nos machucar; segundo que todos em volta ficam parados olhando a cena, parecendo uns bobos. Ninguém entende o que eu sinto por você. E lá vem falatório.

Bem, você foi para suas férias. Foi ficar solto, correr, tomar chuva, tomar sol, comer grama, rolar na grama. Minha família diz: “ele também tem direito a férias, o coitado fica preso o ano inteiro”. Mas e eu? Enquanto você vai ficar solto, eu vou ficar PRESA!!

Nossa! Como sou egoísta!

Sou mesmo. Tenho que admitir. Eu também vou sair de férias por uns dias. Tenho que parar de pensar no amor da minha vida.

MAS NÃO CONSIGO!

Será que você lembra de mim? Será que está com saudades de mim?

Alguns dias se passaram e quando fui na Hípica, tive que ir lá na sua baia. Vazia. O seu cheiro estava indo embora com a limpeza e a pintura nova que estão fazendo. Fiz um teste de boba. Ao entrar no corredor das baias chamei por você, só para ver se outro cavalo atendia. Senti o maior alívio ao constatar que só o meu querido conhecia a minha voz e não era apenas uma coincidência de um som vindo de fora. Já pensou se outro cavalo colocasse a cabeça para fora da baia? Eu ia morrer…

Ao passar por um amigo (não muito amigo) que estava montado no seu cavalo no corredor, ele perguntou se eu estava com saudades do meu cavalo.

-Claro.-Respondi na lata e brava ainda por cima.

-Como que está com saudades do cavalo que te derruba e ele nunca ganha nada?- O atrevido ginete ainda continua.

-Primeiro que ele não me derruba, sou eu que caio dele, segundo que quem ganha é o conjunto e estamos aprendendo juntos a saltar e terceiro que amor entre mulher e cavalo só os dois é que sabem, homem nunca vai entender. – Falei e pronto, podia ter sido mais educada, mas foi ele que pediu.

Não entendo esses caras. Eles também gostam de cavalos, vivem na Hípica e ainda vem com gracinhas? Acho que o que ele tem é inveja do meu cavalo, isso sim. Nunca vi ele chamar e o cavalo responder. Também, o que importa?

Importa que vou ficar quase um mês sem o meu querido, sem montar, sem saltar, sem o meu horário de exercícios. Parece que perdi uma perna.

Ah! Já sei o que vou fazer. Vou visitar o meu amado lá no Haras. Vou tirar umas fotos dele solto, saltando em liberdade, rolando na grama, no pó, conversando com os novos amigos, ao sol. Vou lá ficar com ciúmes dele e matar minhas saudades.

Eu, só eu que te amo mais que todos.

A sua amazona.

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Conto de Neyd M.M.Montingelli.
Neyd nasceu e mora em Curitiba, casada, tem 4 filhas e 1 neto, formada em Psicologia, com especializações em Nutrição, Queijos, Leite e outros cursos na área de animais. Já teve criação de Cabras e um Laticínio. É aposentada pela Caixa Econômica e agora escreve sobre a família, crônicas e contos tendo 8 livros já publicados.

Fotos: Carolina Joppert Peixoto
Modelo: Partout

Montar qualquer cavalo

Mais um conto da escritora Neyd Montingelli que fala do amor das meninas por cavalos.

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Montar qualquer cavalo

A pequena amazona já estava uma mocinha. Gostava muito de animais. Cavalos, principalmente cavalos. Ia ser veterinária, isto estava certo desde que ela tinha 6 anos.

Gostava de cães também. Quando era bem pequena tinha uma cadelinha poodle chamada Nádia que não largava.

Começou a montar com 9 anos, quando o pai descobriu a escolinha da Hípica e logo identificou-se com o esporte. Por ela ficaria com os cavalos todos os dias.

Ela dizia que queria andar à cavalo em outro lugar, só para experimentar. A família foi passar o sábado em um Hotel fazenda. Ela tinha uns 11anos e levou uma amiga que também montava. Mal haviam chegado e as duas meninas já foram explorar o lugar em busca dos cavalos. Encontraram um cercado com vários animais sendo preparados para os hóspedes.

Lá vem a menina, com bota e culote, totalmente preparada para a montaria. O rapaz faz as perguntas de praxe e o pai mais que depressa pede:

– Dê um cavalo melhor para ela. Ela sabe montar. Escolha um cavalo mais animado e não um cavalo de presépio para minha filha. Pode deixar que ela se vira.

O rapaz vai lá atrás e vem com um cavalo pouca coisa diferente dos outros e entrega para a menina que impaciente já monta. Ela queria sair dali sozinha e desbravar aquelas terras, mas o rapaz foi taxativo fazendo um discurso enorme, do que tinha que ser feito, onde andar, em fila, etc., etc. E saíram. O pai voltou para o restaurante e junto com a mãe e a irmãzinha, ficaram na varanda aguardando a volta do passeio das duas.

Depois de uns 40 minutos, uma barulheira é ouvida e uns assobios, uns gritos. A família vai até a ponta da varanda e o que vê? A filha vindo a todo galope naquele cavalo que parecia molenga, com os cabelos longos voando ao vento, (lembrou Lady Godiva, só que estava completamente vestida e ainda era uma criança). Atrás dela vinha o rapaz que deveria estar guiando a comitiva tentando acompanhar o galope com o seu então cavalo de presépio, que a todo instante gritava para ela parar.

Os pais ficaram estupefatos olhando a cena e correram atrás. A menina estava radiante.

– Pai, foi muito legal. Você viu? Consegui que ele galopasse muito rápido. Posso ir de novo, posso? Paga de novo pai, paga.

Difícil foi acalmar o rapaz e pedir desculpas pelo comportamento da menina. Nada que uma boa conversa e um novo pagamento não resolvam. Depois de uns longos minutos os outros hóspedes chegaram e ele não pode negar mais uma volta para a menina fujona. Não sem antes ela prometer que não iria mais sair correndo daquele jeito.

No ano seguinte estava na hora dela sair da escolinha e passar de fase. Estava pronta para saltar 1,0m e ter o seu próprio cavalo. Só que um bom animal não é fácil de conseguir e o preço é sempre alto, geralmente o primeiro cavalo custa o mesmo que o primeiro carro que uma família compra.

O pai foi a procura de um cavalo que estivesse dentro das posses e que fosse adequado a sua princesa, nos meios hípicos.

A mãe também foi procurar, mas por outros lados. Quem sabe não encontraria um cavalo bem barato e bem bonzinho para que a filha pudesse divertir-se e treinar em casa? Moravam em uma casa tipo chácara, com um grande terreno que poderia muito bem abrigar um cavalo e até fazer uma pista para treinos. Por que não?

Mãe e filha procuraram nos classificados e encontraram um anúncio de um animal na Região Metropolitana. Sem o pai saber, lá foram as duas dar só uma olhadinha.

Chegaram a uma casa grande de madeira e uma senhora gordinha e de braços roliços veio receber. Disse que a égua chamava-se Melody e tinha 8 anos. O preço era o mesmo de um cão, e sem pedigree!

A égua estava em uma baia nos fundos do enorme terreno. A mulher disse que o filho já ia chegar do trabalho e poderia conversar melhor. Uma mocinha sardenta surgiu do nada e foi abrindo a portinhola. A enorme égua era realmente bonita. A menina foi logo conversando com a mocinha e as duas foram pegando manta, sela e colocando perto da baia. A mulher gordinha ficou nervosinha e foi brigando com a mocinha:

– Dirce, você não sabe ponhá a sela na égua…

-Mas mãe, a guria disse que sabe ponhá. – A mocinha retruca daquele jeito simplório.

Enquanto falava, entrou na baia e foi puxando a égua pela corda que estava amarrada no seu pescoço. A senhora gordinha estava um tanto agitada, mas ajudou com os artefatos. A mãe da “guria” deu uns passos para trás, tentando não atrapalhar, já que não entendia de encilhar cavalos.

Nisso a menina subindo em um caixote, colocou cabeçada e freio na égua. Depois, com a ajuda da Dirce, colocou a manta e a sela. Com muito esforço, apertou a sela, pois as mãozinhas eram pequenas para aquelas tiras duras e velhas. A senhora gordinha o tempo todo falava que não sabia colocar todas essas coisas em um cavalo e ficou admirada da guria fazer aquilo. Com o cavalo pronto, a menina sem cerimônias subiu no caixote e montou a égua. Neste instante chegou o filho da senhora gordinha, que era o dono da égua. Depois das apresentações ele foi examinar se a sela estava bem colocada e disse para a menina andar com ela pelo terreno. Nem precisava mandar. A menina saiu com a égua toda faceira. Deu a volta na casa, foi e voltou pelo terreno várias vezes, como se já conhecesse a égua há tempos.

Enquanto isso, as duas mães conversavam. A mãe da menina ficou muito nervosa depois dessa conversa. É que a mãe gordinha disse que a égua era muito brava e não deixava ninguém colocar sela nem montar. Só o filho dela podia fazer isso. Ela estava admirada da coragem da menina em fazer aquilo tudo com um cavalo desconhecido e mais ainda da égua ter aceitado a guria colocar a sela e montar sem dar coice.

O pior é que o filho estava ao lado e concordou, mas falava que a égua era boa para trabalho. O que ele queria mesmo era vender o animal.

Quando a menina desceu da égua, a mãe quase rezou ali mesmo. Agradeceu à família toda e disse que entraria em contato caso resolvessem ficar com a Melody.

Na volta para casa as duas conversavam e a menina ainda disse que a égua era muito boa e aceitava os comandos. Só que era muito velha e como disse a senhora gordinha, era muito brava. Adeus Melody, foi um prazer.

Na época as duas ficaram chateadas com o pai que ficou uma fera e não aceitou a idéia de ter um cavalo em casa. Mas, com certeza, foi para o bem, pois algum tempo depois o pai fez um excelente negócio com um cavalo baio do interior do estado. A menina ficou muito bem com ele, ganhando competições, troféus e medalhas e só aumentando o seu amor, a sua vontade e o seu destemor em montar qualquer cavalo, independente da fama que tenha, até hoje, anos depois.

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Conto de Neyd M.M.Montingelli.
Neyd nasceu e mora em Curitiba, casada, tem 4 filhas e 1 neto, formada em Psicologia, com especializações em Nutrição, Queijos, Leite e outros cursos na área de animais. Já teve criação de Cabras e um Laticínio. É aposentada pela Caixa Econômica e agora escreve sobre a família, crônicas e contos tendo 8 livros já publicados.

Fotos: Hipics

O cavalo mais importante do Haras

O conto desse mês escrito por Neyd Montingelli fala sobre um potro que já nasceu predestinado a ajudar uma pequena princesa.

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O cavalo mais importante do Haras

– O nome dele será Troy, como o cavalo da filha da Princesa de Mônaco. Ele será o meu presente para a minha princesa.  – O patrão observa o trabalho de parto de sua égua preferida.- Daqui a 3 anos vocês verão o nome desse cavalo em todos os Grandes Prêmios do Brasil. O pai dele foi Campeão 27 vezes na última temporada. Ele será o cavalo mais importante deste Haras.

Logo o potro escuro e sonolento está ao lado da mãe. Os dias foram passando e o pequeno Troy, ficou realmente pequeno. Enquanto os demais potros cresciam, engordavam e deixavam a companhia da mãe, este continuava mamando e recebendo os cuidados dos veterinários. Demorou em pular e correr no pasto. Suas pernas eram mais curtas e o seu andar tinha um rebolado engraçado, sincronizado. Seu pelo era macio como de um cão. Crina e cauda pareciam cabelo de gente,  sedosos e brilhantes. A doma foi feita tão rapidamente que deixou a todos espantados. O patrão não sabia o que fazer com aquele cavalo tão dócil. Tinha um andar estranho, mas não possuía nenhum defeito que o impedisse de galopar; tinha as pernas mais curtas, mas era forte o bastante para sustentar o peso de um adulto. Só não corria. Todos no Haras amavam o animal e o tratavam como da realeza. Apesar de sua excelente genética, Troy não serviu para as pistas de corrida. O patrão dizia que ele seria então um cavalo de salto para sua princesa amazona.

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O quarto cor-de-rosa, com tema de princesa amazona já estava pronto. O berço finamente confeccionado em dourado com um longo mosquiteiro de laços e minúsculos cavalinhos, era o ponto alto da decoração.  Aliás, cavalinhos róseos, lilases e brancos eram o que não faltava naquele mimo de dormitório infantil.

A princesa estava sendo esperada para abril, mas fevereiro estava no começo e o quarto, o enxoval e a ansiedade já estavam prontos.

-O nome dela será Charlotte, como a filha da Princesa de Mônaco.-Dizia a mãe.

Ainda faltavam dias para a chegada da princesa. Nadia  pre-ci-sa-va muito ir buscas os enfeites de cavalinhos da cortina e o mini uniforme de amazona. Apesar do marido ter prometido que iria na Hípica buscar, ela não se conteve e mesmo sob os protestos da empregada, pegou o carro e foi até lá.

Na volta, o trânsito estava muito congestionado e a garoa do final da tarde veio para refrescar a tarde quente e deixar a rua escorregadia. Foi o que bastou para que Nádia batesse na traseira de um caminhão resultando em um engavetamento na BR. A ambulância logo chegou, mas demoraram em retirá-la do carro e para notar que a bolsa estava rompida. Foi levada ao hospital e Charlotte nasceu horas depois.

Dias depois o patrão chega no Haras e vai até as baias do fundo. Anda sem olhar para os lados. O movimento dos cavalos, a lida dos funcionários, o cumprimento cordial deles, não é percebido. Ele anda olhando a ponta da bota tocando o chão. Um fungar no seu cotovelo o tira do seu transe. Afasta as lágrimas com as costas de uma mão e com a outra afaga a testa de Troy. O animal parece entender e fica ali, com sua enorme cabeça escura encostada no seu ombro, solidário a dor do homem.  Depois o acompanha até a entrada da casa e fica na porta, como um cão.

Dois anos se passam. O choro foi só naquele dia. Agora o patrão é um homem animado e a sua princesa preenche todo o seu tempo livre e todo seu amor.

Como o patrão disse no dia que ele nasceu, Troy é o cavalo mais importante do  Haras, realmente. É o cavalo de sua princesa Charlotte.

Troy tinha a melhor genética possível. Era para ser um campeão das pistas. Mas a natureza não quis assim. A sua condição física o fez pequeno, pernas curtas,  com um gingado no andar e manso como um cãozinho.

Por sua vez, Charlotte nasceu princesa do quarto cor-de-rosa e do coração da família. Isso é a verdade. Ela é a amazona do minúsculo uniforme de equitação e usa bota, capacete e luvas. Isso também é verdade.

A princesa nasceu para ser o conjunto do melhor cavalo do Haras. Mas, nem tudo é como planejamos. Umas coisas mudam no caminho, outras se ajeitam, outras nascem para fazerem par, para servirem, para amar e serem amadas.

Troy nasceu para ser vencedor, campeão. Não deu. No entanto transformou-se no maior campeão do coração de uma menina, de uma família. O companheiro de exercícios, de brincadeiras, de passeios. O amigo inseparável.

Por conta da fatalidade, daquele acidente de carro com a mãe grávida, um bebê ficou sem oxigênio para as células cerebrais durante o parto demorado. Paralisia cerebral é a doença e embora o seu desenvolvimento mental seja normal, a musculatura das pernas ficou bem comprometida.

Os médicos aconselharam a equoterapia para melhorar a motricidade, firmeza do tronco e tônus muscular e controle postural. O trabalho com o cavalo desenvolve a autoconfiança, segurança, disciplina, concentração e o relacionamento com as outras pessoas.

Charlotte, a princesa do patrão agora é a companheira de Troy e com ele faz todos os dias os exercícios de equoterapia, sob os olhares atentos de todos.  Os pais nem lembram mais das enormes aspirações que nutriam pela criança. Transformaram em esperanças por “mais um dia”, “mais uma conquista”. “Um dia ela vai andar” é só esse o desejo dos pais e de Troy.

Troy é o campeão do Haras. Charlotte é a campeã das conquistas. Os dois fazem o conjunto perfeito de superação dos obstáculos da vida.

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Conto de Neyd M.M.Montingelli.
Neyd nasceu e mora em Curitiba, casada, tem 4 filhas e 1 neto, formada em Psicologia, com especializações em Nutrição, Queijos, Leite e outros cursos na área de animais. Já teve criação de Cabras e um Laticínio. É aposentada pela Caixa Econômica e agora escreve sobre a família, crônicas e contos tendo 8 livros já publicados.

Fotos: Jota Design por JuRibas

Amor e medo do cavalo

A escritora Neyd Montingelli mais uma vez nos presenteou com um conto sobre meninas e cavalos. O conto de hoje é sobre uma jovem que mesmo apaixonada por cavalos teve que enfrentar o seu medo pelos equinos.

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Amor e medo do cavalo

Eu sempre gostei de cavalos. Desde pequena amo estes animais grandes, fortes e imponentes. Eles exerciam um fascínio sobre mim que nunca soube explicar.

Lembro de procurar figuras de cavalos para colocar nos meus livros. De querer cadernos que tivessem cavalos na capa. De ter blusas, casacos, meias, toalhas, lencinhos com cavalos. Meu quarto era inteiro enfeitado de cavalinhos, cavalos, cavalões. A todo lugar que eu fosse, tinha que trazer alguma coisinha de um equino.

Como a família inteira já sabia do meu amor por esse animal, nos aniversários e nas outras datas, sempre ganhava presentes que envolvessem cavalos. Eu adorava!

Nunca havia montado. A paixão era gratuita. Era apenas pelo animal em si. Cavalo pelo cavalo. Não importava a raça, a cor, o tamanho, a aptidão. Nem sei como começou. Acho que nasci com este amor por eles. Tenho fotos de ainda bebê brincando com um cavalinho de brinquedo, então, acho que alguém influenciou-me. Só que eu pergunto e ninguém aqui em casa sabe responder de onde surgiu aquele brinquedo. Um mistério!

Assim como as meninas amam seus artistas preferidos, mas sabem que nunca vão poder se encontrar com um Justin Bieber da vida, até meus quase12 anos jamais tinha pensado em me aproximar de um cavalo real. Ainda mais morando em Curitiba e em um apartamento no centro da cidade!

Perto do meu aniversário de 12 anos, uma tia que morava na Europa veio visitar-nos. Sabendo da minha paixão, trouxe-me um uniforme completo de equitação. Foi o presente mais bonito e interessante que eu já tinha recebido. Serviu direitinho e eu fiquei “me achando”.

Ela ficou espantada de eu não fazer aulas de equitação. Eu não entendi. Por que aula? Só porque eu gosto de cavalos tenho que montar neles? Nossa, aquilo deixou-me com um medo terrível. Nunca tinha pensado nisso! Chegar perto de um cavalo, passar a mão nele, MONTAR NELE. Seria possível? Em Curitiba? Onde? Cavalos de quem? E o medo? O que eu faria com ele? Como falar para minha tia que eu estava com muiiiito medo?

Até então eu só tinha visto aqueles cavalos magros dos catadores de papel. Eu nem conseguia olhar. Tinha tanta pena, que dava vontade de levar um pedaço de pão para o cavalo. Por falar nisso, cavalo come pão? Nossa, naquele tempo eu amava tanto os cavalos, mas não sabia NADA a respeito dos cavalos de verdade. Descobri que eu amava a FIGURA do cavalo e não o ANIMAL CAVALO. É uma grande diferença!

Esta minha tia disse que tomaria uma providência quanto a isso. No sábado passou lá em casa e fomos à Hípica. Na verdade, este dia mudou a minha vida, além de saber que foi ela quem me presenteou com o cavalinho das fotos.

Nunca soube o que era uma Hípica. Aos 12 anos a gente pensa que sabe muita coisa, só porque tem um computador e conversa com pessoas de lugares diferentes, mas não conhece a própria cidade. Fiquei encantada!

Aquele lugar parecia mágico. As pessoas andavam e falavam uma língua diferente, era a língua de quem ama os cavalos. É claro que ninguém deu a mínima para a minha presença. Ninguém falou comigo, parecia que eu era invisível. Mas eu não fui até lá ver pessoas, eu quis justificar. Fui ver cavalos e cavalos não falam mesmo!

Paramos no grande cercado já na entrada, onde várias pessoas estavam saltando as “cerquinhas” (mais tarde aprendi que o nome correto era obstáculos). Ficamos observando e eu continuei  encantada! As moças tinham uma postura tão bonita. Os rapazes e até os homens pareciam uns Lords, daqueles filmes de época. Aquele capacete, aquelas luvas. Os cavalos eram belíssimos! Acho que todos eles tomaram banho e foram ao cabeleireiro antes de se apresentarem ali!

É claro que depois também, descobri, ou melhor, aprendi, que eles tomam banho após o trabalho e que aquilo era somente um treino. Eu ficaria mais maravilhada ainda no final de semana seguinte, nos dias de competição.

Em seguida fomos às baias. Nunca pensei que os cavalos pudessem ficar em um lugar tão pequeno e todos ali, sossegados. Mas o medo estava comigo, aumentando, aumentando cada vez que eu chegava mais perto deles.

Um homem todo sorridente com botas de cano longo apareceu. Ele falou com minha tia por muito tempo e foi mostrando as instalações dos cavalos, apresentando os tratadores e certas pessoas que passavam pelo corredor. Quanto a mim, fiquei invisível após os cumprimentos iniciais e dizer que gostava muito de cavalos (no papel e inanimados, esta parte ele não ouviu).

Ele entrou em uma baia e trouxe um cavalo castanho pequeno até perto da minha tia. Eu dei uns 10 passos para trás. Meu coração veio no pescoço e eu senti ele pulsando na minha orelha. O homem deu risada. E já foi falando: “ué? A mocinha tem medo de cavalo? Mas você não gosta de cavalo?” Fiquei muito chateada com isso.

O tratador que estava varrendo a baia, veio perto de mim e disse baixinho:

-Quer que eu te ajude? Eu que cuido desse cavalo. Ele é bonzinho. Olha no olho dele, vem que eu te ensino e eu cuido de você. Não vou deixar acontecer nada com você. Prometo.- E estendeu aquela mão grande e cheia de calos. Gostei dele.

Olhei para ele e peguei naquela enorme mão grossa. Confortada pelas palavras e pelas mãos fortes, fui com ele. O homem sorridente já estava conversando com a minha tia sobre a Europa e nem ligou mais para mim, para o cavalo ou para o tratador.

O Tratador, sim, com T maiúsculo, chamado Juílson, apresentou-me o cavalo, disse para eu olhar na orelha dele. Se a orelha estiver virada para a minha direção, quer dizer que o cavalo sabe que eu estou ali, que ele escutou e está me vendo. Ele  disse que a orelha acompanha o olho. Eu fiquei tão curiosa com essa informação e tão confiante pela presença dele que perdi o medo.

O cavalo chamava-se Well-knit, era pequeno e todo durinho e arredondado. O seu pelo castanho brilhava ao sol. A crina e a cauda um tom mais escuro eram sedosas e bem lisas. Parecia bem sossegado.

Juílson pegou a minha mão e colocou na testa dele. Um arrepio de medo correu pelas minhas costas, mas foi embora quando olhei bem nos olhos do Well-knit. Ele encostou o nariz no meu rosto. Eu quase desmaiei. “Pronto, pensei, agora ele me morde”. Nada. O Tratador deu-me uma cenoura enorme e mandou que eu segurasse para ele comer. Assim que ele abocanhou um pedaço larguei e a cenoura caiu. Juílson riu e disse que eu tinha que segurar, pois o cavalo cortava os pedaços para comer. E o medo dele morder os meus dedos?

E assim foi, eu, o Tratador e o cavalo rindo e nos conhecendo e minha tia e o homem de botas conversando. Depois de muito tempo fomos para casa. No caminho a tia perguntou se eu gostaria de fazer aula de equitação na Escolinha da Hípica e aprender mais sobre os cavalos. Adorei a ideia.

E foi aí que começou realmente a minha vida com os cavalos. Agora com os cavalos de verdade. Aqueles de carne e ossos. Aqueles que interagem conosco, que nos reconhecem, que pedem cenoura quando chegamos perto, que saltam as “cerquinhas”, que nos dão realmente alegria.

Só então aquela paixão que eu tinha por cavalos de filmes, de brinquedos, de fotos, de desenho foi transformada em amor verdadeiro por um ser vivente. Hoje o Well-knit é meu e juntos participamos das competições.

Mas uma lição eu aprendi: quando vejo uma menina nova na Hípica, vou sempre falar com ela, pois lembro do dia em que cheguei aqui e andei invisível por entre as pessoas. E também, nunca vou forçar ninguém a chegar perto dos cavalos, a pessoa pode ter medo como eu tinha.

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Conto de Neyd M.M.Montingelli.

Neyd nasceu e mora em Curitiba, casada, tem 4 filhas e 1 neto, formada em Psicologia, com especializações em Nutrição, Queijos, Leite e outros cursos na área de animais. Já teve criação de Cabras e um Laticínio. É aposentada pela Caixa Econômica e agora escreve sobre a família, crônicas e contos tendo 8 livros já publicados.

A gordinha na Hípica

O conto desse mês da escritora Neyd Montingelli é sobre uma menina que encontrou sua alegria no hipismo.

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A gordinha na Hípica

Anelise acordou radiante como o sol naquela manhã de sábado. Parecia um passarinho de tão feliz.

O pai abre a porta do quarto devagar pensando encontrar a filhota ainda dormindo e o que vê é uma mocinha pronta para a atividade do dia. Ele nunca vai entender! Durante a semana é aquela luta para tirar a menina da cama para ir à escola e no sábado ela acorda SOZINHA? Como pode?

– Já está pronta? Não preciso implorar? Subir aqui 10 vezes e chamar, chamar… O que tem nessa Hípica que faz você levantar da cama cedo no sábado? Vou envelhecer e não vou entender.- O pai abraça a bochechudinha menina de 13 anos e os dois descem para o café da manhã.

Depois do animado desjejum, os dois seguem para a Hípica. A mocinha vai para a baia buscar seu cavalo e faz a aula contente. Depois fica por ali, lidando com o cavalo, conversando com o tratador, com os amigos até o meio dia. Não adianta o pai vir buscar antes, mesmo que esteja a maior chuva. Ela sempre tem alguma coisa para fazer antes de ir para casa.

Dois anos antes ela era uma menina apática, retraída, comilona, indo e vindo de  diversos médicos e especialistas. Iniciava os tratamentos e de nada adiantava. Cada mês o seu peso aumentava e a sua auto estima piorava.

Indicaram o hipismo e os pais levaram a menina na Hípica. Mais uma tentativa. Nas primeiras aulas ela foi emburrada, sonolenta e mau humorada. Pouco atendia às orientações do professor e nem sequer encostava no cavalo. Reclamava do culote, das botas, do capacete, do horário, do cheiro, do sol, de tudo.

Um dia, chegou mais cedo e teve que esperar até o início da aula. Como era emburrada e sempre ficava encostada na porta, naquele dia  estava chovendo teve que entrar no picadeiro e para espanto de todos, ficou vendo a aula das crianças especiais. Ela quase chorou. Era a aula da equoterapia. Ficou ali, envergonhada e emocionada vendo aquelas crianças com tantas limitações físicas e felizes em montar. Elas acariciavam os cavalos, riam, movimentavam-se para lá e para cá e as mães sempre tinham uma palavra, uma frase de felicidade para dizer: “olha, ele já segura sozinho, ela esta levantando a cabeça, ele quer beijar o cavalo…”.

Anelise foi até o quartinho dos alunos, colocou a bota, o capacete e andou  pelo corredor  parando em todas as baias,  olhando cada cavalo demoradamente. A partir daquele dia nasceu o seu relacionamento com estes animais.

Chegando em casa, Anelise foi falar com a mãe e pediu que a levasse novamente na médica. Disse que iria começar um tratamento “de verdade”. Contou que viu as crianças com os cavalos e que ficou emocionada com a cena. As duas fizeram um pacto de ajuda mútua e resolveram pesquisar o uso do exercício com o cavalo para ajudar no emagrecimento. Isto foi fundamental para incentivar a menina quase obesa a seguir em frente com o tratamento.

A alimentação foi novamente modificada pela nutróloga, visando os exercícios.Na Hípica ela começou a dedicar-se nas aulas com o seu treinador.  Prestava atenção aos exercícios e era sempre a última a sair.  Começou também a participar das provas, com boa colocação no ranking.

Como perdeu peso, tornou-se uma menina mais alegre e fez amizade com os outros alunos da Hípica. Agora ela fazia parte de uma turma de jovens e neste ano o pai já prometera um cavalo só seu. Afinal, o hipismo ajudou a menina a emagrecer.

Realmente, o exercício com o cavalo modifica a vida de qualquer pessoa. Principalmente a vida de uma criança com problemas com o peso e com a sua auto estima. Estudos demonstram a validade da equitação e da equoterapia como terapia de reabilitação para crianças com problemas motores, distúrbios de comportamento e alimentação e alteração de humor.

Esta terapia com o cavalo já era descrita como terapêutica desde o tempo de Hipócrates no seu livro “Das Dietas”,  em 377 a.c.  e somente séculos depois vemos a comprovação dos benefícios. Pela movimentação do cavalo, a pessoa recebe mais de 1800 estímulos, que percorrem toda a sua coluna vertebral indo até o seu Sistema Nervoso Central. Ajuda na concentração, postura e fortalece a musculatura. Quer melhor exercício que esse?

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Conto de Neyd M.M.Montingelli.
Neyd nasceu e mora em Curitiba, casada, tem 4 filhas e 1 neto, formada em Psicologia, com especializações em Nutrição, Queijos, Leite e outros cursos na área de animais. Já teve criação de Cabras e um Laticínio. É aposentada pela Caixa Econômica e agora escreve sobre a família, crônicas e contos tendo 8 livros já publicados.

Fotos: Jota Design por JuRibas
Locação: Escola de Equitação da Hípica Paranaense

Você esqueceu do seu cavalo?

Mais um conto escrito especialmente para o Hipismo&Co pela Neyd Montingelli.
Esse é em formato de cartas e mostra como um cavalo pode tocar a vida de um menino.

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Querido Filho,

Como está você? Eu e sua mãe estamos com saudades. Ela chora cada vez que falamos a seu respeito e vive olhando suas fotografias. Seu porta retrato em cima do balcão deve estar todo melado de tantos beijos que ela dá.

Eu espero que as suas escolhas tenham sido acertadas e que você esteja muito bem no seu novo emprego, com sua esposa, com seu apartamento, com sua  nova vida e que um dia possa voltar para sua casa e quem sabe trazer o seu filho para conhecermos.

Os anos passam, meu filho, as lembranças ficam. Com estas coisas modernas de hoje a gente escreve mais do que conversa. Vive-se de imagens. O que seria de nós sem as imagens na memória da cabeça e principalmente as imagens das fotografias e as lembranças que elas trazem? Ainda bem que guardei as fotos de nossa vida com você, pois agora é só  o que temos  e a todo instante podemos recordar as fases do seu desenvolvimento naquelas fotografias quase amareladas e tanto manuseadas. Você correndo aqui pela fazenda quando ainda era um garoto. Seus brinquedos, seu animal favorito.

Uma coisa: Você esqueceu do seu cavalo?

Quando você era pequeno, adorava aquele cavalo. Bialy era o seu companheiro inseparável. Vocês faziam uma dupla e tanto! Só faltava dormir nas cocheiras!

Queria que fizéssemos o seu quarto em cima da baia dele. Imagine só!

Quando montou nele pela primeira vez,  nem tinha todos os dentes e seus pés não alcançavam o final da sela. Você colhia goiabas, maçãs, laranjas  e empanturrava o coitado com as frutas. Ele o seguia pela fazenda feito um cachorrinho e os empregados achavam graça naquele enorme cavalo gostar tanto de um pirralho igual ao meu menino.

Lembra de onde você tirou o nome dele? Bialy: quer dizer branco em polonês e o seu avô o chamava assim, porque você tinha a pele muito branca quando nasceu.

Depois você passou a ter aulas com aquele instrutor de baliza e tambor, mas a sua mãe ficou nervosa e com medo que o “bebê” dela fosse cair. Então as aulas foram de salto e sua mãe ficou mais tranquila. Como você ficou feliz! Começou até a participar de algumas competições. Lembra disso? Ganhou troféus e medalhas. Sua mãe limpa e lustra aqueles troféus toda semana.

Fizemos até uma pista para você aqui na fazenda. Só para você treinar com o seu brancão.

Mas depois vieram os amigos, as festas, a namorada. A fazenda era muito longe da cidade, você cresceu, o cavalo já não era tão importante, tão amigo. Você estava moço, os interesses mudaram. Você foi embora, foi estudar no estrangeiro, casou por lá.

O que aconteceu? Será que tudo isso fez você esquecer do seu cavalo? Você nunca mais perguntou do seu Bialy, depois que ele morreu então, você esqueceu dele para sempre.

Com amor,

Seu pai.

_________________________________________________________

Querido Pai,

Ao receber sua carta hoje, meu coração ficou pequeno e eu vi o quanto sou egoísta em não compartilhar as minhas alegrias e o meu maior orgulho com os meus pais.

Eu nunca fui de escrever ou de falar, você sabe disso.

Você pergunta se eu lembro do meu cavalo, claro que lembro, todos os dias. Bialy foi o meu primeiro amigo e com ele eu consegui desbravar todos os cantos da nossa fazenda e deixei de ter medo, ganhei coragem para ultrapassar os obstáculos.  Por isso estou aqui, nesta posição no meu trabalho, que exige muito esforço e determinação.

Estou mandando estas fotos do seu neto com o novo Bialy. Um cavalo que compramos para o Junior bem parecido com aquele que deixei aí, para que ele tenha as mesmas alegrias que eu tive graças a oportunidade que o meu pai me proporcionou um dia deixando que eu fosse amigo de um cavalo branco tordilho.

Pai, estou fazendo com meu filho o que você fez comigo: deixando que ele conheça a vida por ele mesmo e dando apoio em tudo. Ensinando a ter coragem, por isso é que comprei esse cavalo, grande, forte e parecido com o meu Bialy.

Espero que eu possa ser um pai tão especial para meu filho, como você foi para mim.

Obrigado meu amado pai.

De seu filho.

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Conto de Neyd M.M.Montingelli.
Neyd nasceu e mora em Curitiba, casada, tem 4 filhas e 1 neto, formada em Psicologia, com especializações em Nutrição, Queijos, Leite e outros cursos na área de animais. Já teve criação de Cabras e um Laticínio. É aposentada pela Caixa Econômica e agora escreve sobre a família, crônicas e contos tendo 8 livros já publicados.

Fotos: Jota Design por JuRibas
Modelo: Alexandre
Locação: Haras Adal

A menina que sonhava
com um cavalo

O Hipismo&Co agora tem uma seção de contos escritos pela colaboradora Neyd M.M.Montingelli. O primeiro conto é sobre uma menina que sonhava em ter um cavalo.

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A Menina que sonhava com um cavalo

-Sonhei com um cavalo preto brilhante que estava na praia e a água espirrava enquanto ele galopava pelas ondas. Eu chamei e ele veio pertinho de mim. Senti o bafo dele no meu rosto.- A menina falava sorrindo.

-Credo mãe, eu não aguento mais a Melany. Ela fala tanto de cavalo que até enche. Agora vai dar para sonhar com esses bichos? Se fosse eu falando do gato que eu quero vocês já estavam me criticando…

Essa é a discussão cada vez que a família está reunida e Melany vem falar de sua verdadeira paixão pelos equinos. A irmã Bruna fica irritada porque todos prestam atenção nos desenhos, nos recortes, nos sonhos da menina de cabelos compridos e olhos que sorriem. A jovem não entende. Por que escutam a pirralha e nem dão atenção ao que ela quer?

-Eu queria apenas um gatinho. Ei, vocês, família, olha eu estou aqui, Bruna, lembram? A outra filha. Deixa, esqueçam, ou melhor, continuem como está.- Bruna levanta-se e sai da sala batendo o pé, trancando-se no quarto.

O pai e a mãe apenas entreolham-se. No caso de Bruna, discutir não era a melhor solução. Eles acharam melhor o silêncio. No dia seguinte talvez Bruna mudasse de opinião a esse respeito. Ou não.

O sábado amanheceu horrível. Chuva e frio como era comum nessa época do ano em Curitiba. Lá pelas 10 horas o pai volta do centro da cidade com uma caixa e um embrulho e deixa na cozinha. A mesa estava arrumada para um grande café da manhã. As meninas entram na cozinha e até se espantam em ver aquela fartura.

-Nossa, estamos comemorando o quê? –Bruna senta e espera a resposta.

Os pais começam a servir pães, bolos, suco e a conversar animadamente. Todos estão contentes. O pai levanta e entrega para Bruna a enorme caixa. Quando ela abre, encontra um filhote de gato persa branco. Ela nem sabe o que fazer, chora, ri, abraça o pai, a mãe, a irmã. O embrulho era para Melany, dentro o livro de Monty Roberts, O homem que ouve cavalos. Depois de longos minutos paparicando o gato, leitura rápida do livro e em meio a alegria das duas irmãs, os pais tem algo a dizer.

As meninas nem notam, mas a notícia não será muito atrativa para duas meninas de cidade grande . Eles vão morar em uma fazenda, em Tibagi, a 200km de Curitiba. O pai será o administrador financeiro desta propriedade rural, com um salário muito bom, casa para a família e todos os benefícios. Os presentes foram o suficiente para tornar a informação menos ruim.

As semanas passam e logo eles estão acomodados na enorme casa em meio a quilômetros de pastagens, som de cachoeira, piados, latidos. Bem ao longe, mugidos do gado.

As promessas de uma vida melhor, sem os sacrifícios, as economias, deixam a família quase conformada com o novo ambiente. Os sons são completamente diferentes, o colorido é outro, o ar até dói quando é respirado, de tão puro, a água é doce demais e já sai gelada da torneira; as frutas tem um sabor de quero mais e estão ali, na porta da cozinha.

O ônibus da fazenda passa cedinho, leva todas as crianças dos funcionários até o Colégio Estadual ou para a Creche Municipal. Ao todo são 14 crianças dentro da fazenda.
Melany adorou a escola. Fez muitos amigos e gostou muito da professora. Para Bruna estava sendo difícil o entrosamento, mas um dos colegas da turma estava conseguindo conversar com ela aos poucos.

Melany chegava em casa cada dia mais feliz e com novidades. Agora era a vez das galinhas. Estava apaixonada pelas galinhas e pintinhos da fazenda. Passava a tarde na casa dos funcionários procurando galinhas que estivessem com seus pintinhos pelos quintais.

Nesta busca, entrou em um barracão velho atrás da casa do mais antigo funcionário da fazenda porque escutou um barulho e achou que era uma galinha choca. Foi bem quietinha e abriu uma pequena porta nos fundos. O enorme barracão estava vazio e limpo. Estranhou em ver aquele desperdício de espaço, tão bem cuidado. Sentiu cheiro de estrume, de pelo de animal, mas não viu nenhum. O barracão era arejado e claro, bem alto, com apenas um cercado em um canto. Viu alguns montinhos de estrume de cavalo:

-Ah, então é daí o cheiro. Mas cadê o cavalo? Será que está lá fora pastando? – Pensou a menina.

Deu mais alguns passos quando uma nuvem de poeira levantou e do canto, por de trás do cercado, surge um enorme cavalo preto bufando como um monstro, investindo contra ela. O susto foi enorme! Ela apenas abaixou-se e ficou acocorada, com as mãos na cabeça, enquando a fera negra saltava e coiceava a sua volta. Passados alguns intermináveis segundos. O cavalo parou e voltou para o cercado. Melany nem pestanejou. Levantou-se, correu para a pequena saída. Fechou cuidadosamente a portinha e ficou ali, com o coração saltando mais que aquele cavalo. Sentou-se em uma pilha de troncos ao lado da parede para poder respirar melhor.

Estava com a cabeça encostada na parede quando sentiu o bafo do cavalo na sua orelha, por entre as frestas da parede. Novamente o seu coração veio na boca e ela saltou dos troncos. Ficou ali olhando a parede. Viu a silhueta do cavalo. Os dois ficaram se encarando.

De repente o cavalo vira-se e sai dali.

A menina vai mais perto e fica olhando pelas frestas. A cena que vê é maravilhosa! Um cavalo preto, enorme, com cauda e crina muito longas e emaranhadas, saltando e correndo naquele espaço vazio do barracão. Lindo, lindo.

-Nossa! É o cavalo que aparece nos meus sonhos. É ele sim.-Melany fala baixinho.
Ela ficou ali admirando aquela maravilha negra até o sol ir esconder-se atrás do morro e o céu ficar tão vermelho que parecia pintura de criança. Ao dar-se conta disso, suas pernas começaram a doer pelo contato com as tábuas ásperas.

-Tchau negro dos meus sonhos. Dessa vez vou sonhar com você de verdade.-A menina fala com o cavalo, despedindo-se.

O cavalo para com os saltos e olha em direção à menina, como se soubesse que ela estava lá e vai para o cercado. O show acabou. Melany vai contente para casa.

À mesa do jantar, cada um tem uma novidade para contar e todos esperam que a menina comece a falar dos pintinhos, pois foi isso o assunto dos últimos dias.

-Eu vi o cavalo dos meus sonhos.-Melany fala sonhadoramente.

-De novo não! – Bruna, já vai falando em tom bravo.- Essa menina vai recomeçar? Achei que tinha sarado dessa DOENÇA.

-Pode parar Bruna. Deixa a sua irmã.-A mãe intervém.

-Chega todo mundo. Amanhã vocês contam, hoje eu quero ver o Atletiba bem sossegado.-

O pai levanta e vai para a sala, esperar pelo grande jogo de futebol.

As três ficam em silêncio na cozinha, lavando os pratos.

Já no quarto, Melany busca pelo livro de Monty Robert que ganhou do pai antes da mudança. Já tinha folheado e lido alguns capítulos, mais para dizer ao pai que leu do que por curiosidade. Agora era diferente! Ela precisava do que estava ali.

Aconchegou-se entre as cobertas e deu início ao seu estudo: como domar um quase garanhão negro, tendo apenas 10 anos, nenhuma experiência, muito medo e uma paixão enorme por aquela montanha de músculos. Adormeceu sobre o livro.

Os próximos dias foram divididos entre escola, rápidas brincadeiras com as crianças da fazenda e longas horas de observação ao cavalo. Não se atreveu mais a entrar no barracão, viu que foi uma loucura, pois não conhecia o animal e poderia ter se machucado.

O que acontece nos filmes é uma coisa, na vida real é outra, bem diferente.

Percebeu que um dos peões da fazenda vinha quase todos os dias tratar do cavalo. Trazia ração, feno e recolhia as fezes. Como ele fazia? Chamava o cavalo para o cercado, e colocava cenouras no coxo por uma abertura na parede. Enquanto ele comia puxava uma corda que fechava o cercado que o deixava preso. O peão entrava pela porta da frente e limpava o barracão, juntando os excrementos e lavando os coxos e enchendo de ração muitas vezes ficava observando o cavalo e admirando a sua beleza. Depois saía e abria o cercado.

Um dia Melany foi atrás dele e perguntou do cavalo. O peão foi resistente em falar, mas era uma menina e foi contando:

-É do patrão. Nasceu aqui. Tem 3 anos e é filho da égua que o filho dele montava. A égua pariu no dia que o filho dele foi embora, e ela morreu logo depois. Ninguém nunca conseguiu domar esta fera. Só eu venho tratar. O patrão não deixa mais ninguém vir aqui depois que não conseguiram domar o bicho. Disse que ele vai ficar aí até morrer. Dá uma pena!

Melany foi pensativa para casa. Realmente era uma história triste. Sentou-se à frente do computador e passou a pesquisar sobre cavalos indomáveis. Viu vídeos do casal do Mato Grosso que dá aulas para os pantaneiros; de Doma Índia de várias partes do Brasil e do mundo; Doma Tradicional, a famosa judiação com chicote, varas, saco na cabeça, amarrando as pernas, e mais algumas aberrações que fizeram a menina chorar na frente da tela. Pronto! Ela já estava satisfeita. Com as anotações no seu caderno, poderia começar a trabalhar.

A sua maravilha negra não tinha nome, então resolveu batizá-lo: Czarny, negro em polonês, era o nome do galo da avó, assim ninguém iria desconfiar com quem estava brincando à tarde.

Todo dia fazia seu trabalho de conquista e aproximação com Czarny. Abriu uma fresta maior na portinha onde cabia toda a sua cabeça para dentro do barracão, arrumou uma cadeira com as toras e uma cobertura com um maderite, para os dias de sol e chuva.

Ficava ali, conversando com o cavalo enquanto ele corria, pulava, comia, bufava, coiceava, investia contra a parede. Um dia levou cenouras e jogou lá para dentro. O cavalo nem ligou. No dia seguinte notou que ele comeu. Jogou mais perto, cada dia mais perto. Até que um dia, com toda a coragem do mundo, ficou segurando uma enorme cenoura no buraco.

Czarny pegou a cenoura enquanto ela recolhia a mão rapidamente.

Levou maçãs, rabanetes, beterrabas, goiabas, cada dia uma fruta ou verdura diferente. Czarny ficava esperando pela guloseima do dia. Cavalos aprendem rápido. Crianças também. Ela não deixava de pesquisar na internet. Pediu que o pai comprasse os outros livros de Monty Robert e mais alguns com temas relacionados.

Cada vez que pegava as frutas e verduras na cozinha dizia que iria levar para o Czarny. A mãe achava que ela havia encontrado um galo igual ao da avó e agora estava alimentando-o e até ajudava a montar a cesta. Chegou a perguntar onde estava o Czarny, a cor e de quem era e a menina respondeu a todas a tudo sem mentir:

– Ele fica preso no barracão grande lá perto do rio, é inteiro preto e é do patrão. Sabia que ele não deixa ninguém tirar o coitado de lá?

Passou o outono, o inverno e Melany estava cada vez mais amiga do gigante negro. Agora já podia entrar no barracão pela portinha e sentar-se pelo lado de dentro sem perigo algum. Algumas vezes arriscava-se a andar rente à parede e a ficar em pé, frente a frente com ele. Um dia foi ao galpão dos peões e surrupiou uma cabeçada bem velha. Levou para casa e lavou bem, nem sabia porque estava fazendo isso, era instintivo.

Colocou um caixote perto da portinha, assim, subindo nele, ficava na altura da cabeça do cavalo. Mais alguns dias e conseguiu colocar a cabeçada. Outros dias e já agradava a testa e até as orelhas. O tratador nem reparou que ele estava com a cabeçada, pois prendia o cavalo no cercado cada vez que fazia a limpeza e nem se atrevia a chegar perto.

Mais um furto e Melany arranjou um cabo. Com a troca de carinho e conversa, prendeu o cabo curto na cabeçada. Czarny estranhou no início, pois a ponta batia-lhe no meio da coxa e a cada balanço ele levava um susto. Levou uns dois dias para ele se acostumar. Melany começou a puxar delicadamente pelo cabo, ao mesmo tempo que acariciava-lhe a testa. Quando o seu comando de esquerda e direita era aceito sem solavanco, ela agradava.
Desceu do caixote e passou a andar pelo barracão, agora sem medo. Às vezes parava e o cavalo parava também. Pegou o cabo e ele deixou, andou com ele, puxando pelo cabo, por todo o barracão, conversando, parando, fazendo carinho na testa, nas orelhas, no pescoço nas coxas.

O tratador naquele dia resolveu vir cuidar do cavalo mais cedo e chegando perto do barracão escutou as risadas da menina. Ficou aflito e correu para a janela do cercado. Não acreditou no que viu: uma menina de longos cabelos caminhando tranquilamente DENTRO do barracão, puxando aquela fera por um curtíssimo cabo preso a uma cabeçada colocada no cavalo?

Primeiro: quem colocou a cabeçada no cavalo mais xucro da fazenda? Segundo: desde quando este monstro aceita ser conduzido por alguém? Terceiro: como ela está viva ainda?
O tratador ficou ali horrorizado olhando a cena. A menina andava, parava, conversava com o xucro, ele abaixava a cabeça, ela acariciava a testa e as orelhas dele, eles andavam mais um pouco, ela ria. Depois de uns minutos, a menina deu um beijo no cavalo, tirou uma maçã de um pacote e ficou segurando, o cavalo pegou com os lábios sem nem encostar nas mãozinhas dela. A menina desapareceu por uma pequena porta e o cavalo transformou-se no monstro novamente. Pulava, coiceava, bufava e corria pelo barracão. Era outro cavalo. O rapaz assobiou chamando por ele e ele jogou-se contra a parede da janela. O tratador fechou o cercado, trancando a fera. Fez o seu serviço ainda não acreditando no que tinha visto.

No dia seguinte foi lá para ver se a mesma coisa acontecia novamente. Esgueirou-se entre as folhagens e ficou espreitando pelas frestas. E lá estava a menina, sentada no caixote brincando com as orelhas daquele brutamontes. Desta vez ela estava com um cabo mais comprido, bem comprido que depois de trocar pelo curto, colocou um caixote no meio do barracão, subiu nele e ficou rodando com o cavalo, como em um redondel. O monstro obedecia, parecia um pônei. Nem uma corcoveada, nem um coice, nem uma bufada. Nada. A menina ria, conversava, virava para a esquerda, para a direita, mais perto, mais longe. Depois, o cavalo ganhava frutas, um beijo e ela ia embora e ele se transformava na fera de sempre.

Assim foi por longos dias, o tratador não contou a ninguém, com medo de ser repreendido por ter deixado uma menina aproximar-se do cavalo do patrão. Era melhor dizer que não sabia de nada.

Um dia ele viu o acidente.

Naquele dia ensolarado de setembro, ela puxou o cavalo o mais perto do caixote e acariciando as pernas, o pescoço jogou-se de atravessado sobre o cavalo. Czarny deixou. O tratador estava aflito olhando pela fresta. Melany tinha visto tantos vídeos de Doma que achava que sabia o que estava fazendo. Fez várias vezes este movimento e depois montou nele. Só tinha um detalhe: ela não sabia montar. Nunca havia montado. Não sabia como ficar em cima de um cavalo, onde colocar as pernas, os joelhos, onde segurar. É o grande problema de quem nunca montou. Assim que o cavalo deu alguns passos ela desequilibrou-se e caiu, sorte que foi sobre o feno. O cavalo nem assustou-se, apenas desviou dela e ficou ao lado. Ela estava com muita dor no braço, mas levantou-se e ainda teve forças para desengatar o cabo e dar umas goiabas para ele.

Do outro lado do barracão, o tratador estava branco. Ele foi correndo até a portinha.

-Eu vi tudo. Você é louca menina. Você se machucou? Será que não quebrou o braço? O patrão vai me matar quando souber que eu deixei você entrar aí com o monstro.

-Não conta nada, por favor.-Melany pede.- Czarny ainda não está pronto. Eu preciso montar ele.

-Como é o nome que você colocou nele? Zane? Vocês viraram amigos né? Olha, não sei como você conseguiu, mas esse bicho aí é fogo viu?- O tratador estava nervoso com a queda da menina.-Eu não conto nada, pode deixar.

Em casa a menina disse que caiu no barracão enquanto brincava com o Czarny, novamente sem mentiras. Ficou com o braço roxo. Nada que alguns sprays e carinho da mamãe não cure, depois de muitas recomendações, é claro.

No dia seguinte, estava lá novamente, mas não tentou subir no cavalo, pois o braço doía. Limitou-se a puxá-lo pelo cabo curto, contando os pormenores dos cuidados da mãe.

O tratador está esperando por ela na saída, com uma proposta: queria ensinar-lhe a montar.

Mas tinha que ter o consentimento dos pais. Não queria confusão para o lado dele.
Foi duro.

Tanto o pai como a mãe estavam fazendo um cavalo de batalha. Mas depois de muito insistir, a persistente menina de olhos que sorriem, conseguiu. Com uma condição: a mãe estaria presente em todas as aulas, com medo da menina ficar perto daqueles cavalos. Mal sabia…

E os dias passaram. No começo de novembro, Melany já trotava em qualquer cavalo que o tratador a colocasse. A mãe até já desistiu de acompanhar as aulas.

No barracão, a amizade com Czarny estava cada vez melhor. Ela conseguia montar, trotar e até galopar. Neste tempo todo, com a ajuda de Melany, o tratador conseguiu fazer amizade com ele e entrava no barracão tranquilamente. Colocaram cabresto, sela e freio. As ferraduras foram trocadas com muito cuidado.

Na tarde de um dia chuvoso daquele final de dezembro, Melany se encheu de coragem e montada no lindo cavalo, saiu do barracão. Todos estavam em suas casas arrumando a festa de passagem de ano, ninguém ia notar um cavalo andando por lá.

Era a primeira vez que Czarny saía do barracão desde que o patrão fez aquela tentativa de domá-lo quase 2 anos atrás. Ele estava nervoso, dava para ver pelas orelhas que se movimentavam sem parar.

Melany, acalmava o amigo afagando o seu pescoço e conversando com ele. A chuva caía, escorrendo pela jaqueta impermeável dela e entrando em seus olhos. O pelo, a crina emaranhada já estava encharcada e cada vez que o cavalo balançava as orelhas gotinhas de chuva iam direto na boca da menina. Ela ria e fazia piadinhas. O barulho das patas nas poças d’água também a divertiam. Os dois foram passear lá atrás da plantação de amoras.
Melany estava se divertindo e o cavalo há muito preso também. De vez em quando apressavam o passo em meio às árvores baixas. Outras vezes paravam, só para admirar a beleza das frutas. Em uma pequena clareira com um banco, Melany parou e foi colher algumas frutinhas negras. Sentou-se no banco molhado e comia uma fruta e dava outra para o cavalo. Tudo entre risos, conversas e afagos.

Czarny começa a ficar nervoso e a bater com a pata no chão e bufar. Melany fica em pé no banco e olha em volta segurando as rédeas. Parado em meio às árvores está um homem todo encharcado. Parecia que ele já estava ali há muito tempo. A menina monta no cavalo e já pensava em sair correndo dali quando o homem falou:

-Este é o cavalo do barracão? O cavalo xucro? Você é a filha do Gilson?

Ela assentiu com a cabeça e percebeu que era o patrão. Seu coração veio na boca. Medo. E agora? Será que ele iria ficar tão bravo a ponto de despedir o pai dela?

O cavalo não parava. Pisoteava a lama, andava em círculos. Melany abraçou o pescoço dele, fez carinho nas orelhas e ele acalmou-se.

O homem sentou-se no banco molhado. Seu rosto era triste. A chuva já havia parado, mas as lágrimas continuavam a rolar pela face, ensopando mais o colarinho da camisa azul.

-Meu filho gostava de vir aqui. Ele tinha dois caixotes de madeira neste lugar. Para sentar, comer amoras e maçãs no verão, mimosas no inverno e depois usava o caixote para poder subir na égua. Os dois ficavam horas neste lugar. Por isso mandei fazer este banco, em homenagem aos dias felizes que meu filho passou aqui na fazenda. Olhe.

O homem triste passou a mão no banco tirando as folhas para mostrar a inscrição:

“O menino que sonhava com um cavalo viveu anos felizes com sua Jinflor” ao lado de um desenho de um menino montado em um cavalo negro.

-Este cavalo é filho da égua Jinflor. Ele nasceu nervoso, nunca conseguimos domá-lo. Todos os peões tentaram e ninguém conseguiu. Resolvi deixá-lo preso para sempre, igual a minha dor pela perda do meu filho. Sempre vou lá ver esse cavalo e tenho a impressão que é uma mensagem dele para mim. E hoje vejo você aqui, no mesmo lugar, fazendo as mesmas coisas, com o mesmo cavalo…-O homem chora copiosamente com o rosto entre as mãos.

A menina larga as rédeas e vai até ele. Seus braços o envolvem em um carinho sincero. Ela ficou comovida. Não sabia da história, apenas foi andando pelos caminhos das árvores e aquele lugar é tão bonito que sentiu vontade de sentar e ficar ali com seu amigo, comendo as frutas e conversando.

-O senhor não está bravo por eu ter tirado o Czarny do barracão e por eu ter vindo aqui?

-Não, minha pequena, claro que não. Você conseguiu uma proeza ímpar. Não sei o que você fez, mas domar esse cavalo foi a coisa mais espetacular que eu já vi. Como é o nome que você deu para ele? Czarny, negro. Pois este será o nome dele, do seu cavalo.

O homem triste mudou a fisionomia. Olhou para a menina e a abraçou, agradecendo.

Chegou perto do cavalo e o afagou na testa. Os dois ficaram ali agradando o cavalo e conversando animadamente. Ela contou que também sonhava com um cavalo. O enorme animal estava tranquilo, aquele homem não era ameaça, era amigo.

Para o patrão, o cavalo fora do barracão, domado, nas mãos de uma criança era a mensagem do filho que foi embora: “quem sonha com cavalo só pode ter amor no coração e nas atitudes”.

FIM

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Conto de Neyd M.M.Montingelli.
Neyd nasceu e mora em Curitiba, casada, tem 4 filhas e 1 neto, formada em Psicologia, com especializações em Nutrição, Queijos, Leite e outros cursos na área de animais. Já teve criação de Cabras e um Laticínio. É aposentada pela Caixa Econômica e agora escreve sobre a família, crônicas e contos tendo 8 livros já publicados.

Fotos: Jota Design por JuRibas
Modelos: Beatriz Mohr e Luck Jolly

Mãe de Amazona

A escritora e mãe de uma jovem amazona, Neyd Montingelli, nos enviou esse texto sobre como é ter uma filha apaixonada por cavalos e pelo hipismo.

Veja abaixo a crônica de Neyd:

Sua filha monta? Vocês tem chácara?
(por Neyd Montingelli, mãe de Rafaella Montingelli)

Como eu tenho quatro filhas, sempre digo o nome delas, o que cada uma faz, o curso que estão fazendo ou já fizeram. Falo da filha número 4, a menor de 11 anos e depois da minha amazona, senão nem chego a falar da minha pequena .

– A Rafaella está cursando Veterinária e pratica hipismo, ela salta com o cavalo.

Em seguida vem as perguntas, mesmo que eu tenha dado algumas explicações:

-Sua filha monta à cavalo? Vocês têm chácara?

E aí vem as aquelas inúmeras perguntas:

– Você não tem medo que ela caia?

– Não tem medo que o cavalo avance nela?

– Que ela leve um coice?

– Onde fica o cavalo? O que ele come? Quem cuida? Tem professor para isso? Quanto ganha uma pessoa que monta? Que prêmios ela ganha nas competições? Ela vai para as Olimpíadas? Custa caro manter um cavalo?

Algumas vezes consigo responder parte dessas indagações sem antes ter que escutar:

– Eu já andei à cavalo. Eu já caí de um cavalo. No sítio do meu tio tinha um cavalo baio que puxava carroça. Eu andei muito à cavalo naqueles hotéis fazenda, etc. etc.

Chega a ficar engraçado a conversa com muita gente. Todos tem alguma história com cavalos, com alguém envolvendo cavalos e sempre querem contar. Depois lembram que o assunto começou comigo e voltam as perguntas:

– Mas é aquela sua filha linda, a Rafaella que monta à cavalo? Como?

Daí, como a atenção volta para mim, posso explicar o que é REALMENTE o hipismo.

Aliás, minha filha não faz hipismo. Isto porque hipismo não é simplesmente montar a cavalo. Segundo a Wikipédia, “Hipismo é a arte de montar a cavalo que compreende todas as práticas desportivas que envolvam este animal”. Portanto, é uma ARTE.

É claro que eu não vou ter uma enciclopédia na mão para dizer com estas palavras o que quer dizer o Hipismo, então eu explico assim:

“Hipismo é o esporte onde a amazona faz o cavalo saltar vários obstáculos  na ordem que eles estão na pista, no menor tempo possível, sem derrubar nenhum, com muita obediência e elegância”.

Eu noto que as pessoas trocam imediatamente a imagem que tinham da minha filha na cabeça: primeiro pensavam nela como um peão de rodeio, montada em cavalo chucro, inclusive com chapéu de vaqueiro. Depois pensavam nela com aquela roupa brilhante e colorida, chicote na mão, joelhos próximos ao corpo e as pessoas apostando, jóquei. Nada disso pessoal!

Ainda bem que temos celulares com fotos!

Quando mostro a foto da minha bela filha, elegantemente montada e aparamentada em seu cavalo, saltando um obstáculo, só escuto: Ohhhhh!

Que satisfação para esta mãe!

Depois disso vem as explicações. A minha filha não monta UM cavalo. Ela monta o cavalo DELA, que tem nome e muitos dados,tem documentos, tem gostos, tem vontades, tem horários, tem bons hábitos, tem maus hábitos, tem um quarto, tem gastos mensais, tem um tratador, tem roupa de frio, tem medicamentos, tem um médico e uma ficha médica. Tem uma árvore genealógica e parentes ilustres pelo Brasil, tem medalhas e troféus. Recebe ração balanceada, feno especial e banho após o treinamento. Como agrado ganha cenoura cada vez que ela chega perto e para prevenir a cólica come semente de linhaça. Periodicamente tenho que dividir o óleo que iria usar nas minhas frituras com o primeiro amor da vida dela, pois sabemos que faz bem para a saúde dele.

Ao compartilhar estes detalhes com as pessoas, por vezes soa como soberba, por vezes ficam até com pena…

Deixando de lado os achismos das pessoas, o próprio círculo familiar demorou muito até descobrir e inteirar-se do que era realmente o hipismo na vida de uma menina que agora virou moça.

Minha filha começou a montar com 9 anos, sob os meus veementes protestos e todas aquelas frases costumeiras e desesperadas de mães, que incluíam sempre os verbos cair, quebrar, machucar. Ah, e também tinha o apelo monetário. Mal sabia eu o que seria a expressão “gastos” no decorrer dos anos.

A danada da menina identificou-se de imediato com os cavalos. E uma coisa engraçada era que ela saía-se bem nas provas. Ganhava medalhas, troféus, brindes, presentes. Ficava no lugar mais alto do pódio, aparecia nas fotos, na revista, nas listagens da Hípica, foi até competir em outros estados. Orgulho do papai, da mamãe, dos vovôs, dos titios, do treinador.

Daí ela tinha que sair da escolinha e ter o seu próprio cavalo. Acabou a etapa de principiante. Lá fomos nós atrás de um cavalo para comprar. A amiga Ju Ribas lhe emprestou uma égua, a Rita Lee foi então por longo tempo o “primeiro amor, amor maior” daquela menina. Aprendizado difícil, trabalho duro, pois quando passa para essa fase do cavalo próprio, as aulas são intensificadas, puxadas e sempre o treinador exige maior concentração e maior esforço.

Depois de ganhar medalhas, troféus, fazer várias viagens, Rafaella recebeu seu próprio cavalo, o Babu o cavalinho da Barbie como era chamado, isto porque era pequeno e muito bonitinho, sem ascendencia conhecida, porém com umvigor explêndido. Com ele minha filha encheu as prateleiras de medalhas e troféus e os álbuns de fotos.

Hoje, em outra fase de sua carreira, com o seu “primeiro amor, amor maior” novo que é o Niklord, minha filha está mais um pouco mais madura no seu esporte. É mais consciente no que faz e sabe as particularidades das suas ações. Está cursando Medicina Veterinária e procura entender o cavalo como ser vivente e não apenas como seu amigo. Gosta muito de cavalos e procura aprofundar-se no estudo deles, mas sei que vai fazer isso no decorrer do curso e não como uma obsessão.

Namorado? Ela tem sim. Não há concorrência entre eles, porque homens não competem com cavalos, se competissem, os homens iriam perder é claro. Então é melhor que cada um tenha o seu lugar no coração de uma mulher que é amazona.

Neyd comemorando uma vitória do conjunto, Rafaella e Babu.
Neyd comemorando uma vitória do conjunto, Rafaella e Babu.
Neyd entregando a medalha de primeira colocada a sua filha Rafaella,
Neyd entregando a medalha de primeira colocada a sua filha Rafaella,


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