Cavalos e Contos, livro de Neyd Montingelli

Quem acompanha o Hipismo&Co deve se lembrar dos contos sobre cavalos da escritora Neyd Montingelli que foram publicados aqui.

Neyd fez uma coletânea de seus contos e publicou um livro, chamado Cavalos e Contos. Eu tenho o prazer de dizer que fotos produzidas por mim ilustram os contos do livro.

Acontecerá o lançamento do livro durante o Concurso de Salto Nacional Indoor, nos dias 25 a 28 de junho na Sociedade Hípica Paranaense em Curitiba. O livro estará a venda pelo preço promocional de R$40,00. Quem levar uma cópia para casa ganhará um pingente de ferradura e poderá ter seu livro autografado pela autora.

Cavalos e Contos é a reunião de contos de cavalos, publicados aqui no blog Hipismo&Co durante o ano de 2014. De fácil leitura, linguagem simples e com o tema apreciado por cavaleiros e amazonas, retrata o dia a dia, o trabalho, treinamentos, competições e a lida com este animal forte e imponente. Tomando como base episódios divertidos, dramáticos, emocionantes da vida de pessoas jovens e adultas que convivem com os cavalos, estes contos retratam histórias que poderiam realmente acontecer. O leitor que ama os cavalos certamente irá identificar-se com os personagens ou lembrará de algum fato pitoresco que aconteceu com alguém de seu meio equestre.  Acompanha fotografias de belos animais que ilustram e enriquecem os textos.

O livro está à venda através do site www.neydmontingelli.com.br e nas Livrarias Curitiba.

cavalo e contos

 

Amor e medo do cavalo

A escritora Neyd Montingelli mais uma vez nos presenteou com um conto sobre meninas e cavalos. O conto de hoje é sobre uma jovem que mesmo apaixonada por cavalos teve que enfrentar o seu medo pelos equinos.

amazona1

Amor e medo do cavalo

Eu sempre gostei de cavalos. Desde pequena amo estes animais grandes, fortes e imponentes. Eles exerciam um fascínio sobre mim que nunca soube explicar.

Lembro de procurar figuras de cavalos para colocar nos meus livros. De querer cadernos que tivessem cavalos na capa. De ter blusas, casacos, meias, toalhas, lencinhos com cavalos. Meu quarto era inteiro enfeitado de cavalinhos, cavalos, cavalões. A todo lugar que eu fosse, tinha que trazer alguma coisinha de um equino.

Como a família inteira já sabia do meu amor por esse animal, nos aniversários e nas outras datas, sempre ganhava presentes que envolvessem cavalos. Eu adorava!

Nunca havia montado. A paixão era gratuita. Era apenas pelo animal em si. Cavalo pelo cavalo. Não importava a raça, a cor, o tamanho, a aptidão. Nem sei como começou. Acho que nasci com este amor por eles. Tenho fotos de ainda bebê brincando com um cavalinho de brinquedo, então, acho que alguém influenciou-me. Só que eu pergunto e ninguém aqui em casa sabe responder de onde surgiu aquele brinquedo. Um mistério!

Assim como as meninas amam seus artistas preferidos, mas sabem que nunca vão poder se encontrar com um Justin Bieber da vida, até meus quase12 anos jamais tinha pensado em me aproximar de um cavalo real. Ainda mais morando em Curitiba e em um apartamento no centro da cidade!

Perto do meu aniversário de 12 anos, uma tia que morava na Europa veio visitar-nos. Sabendo da minha paixão, trouxe-me um uniforme completo de equitação. Foi o presente mais bonito e interessante que eu já tinha recebido. Serviu direitinho e eu fiquei “me achando”.

Ela ficou espantada de eu não fazer aulas de equitação. Eu não entendi. Por que aula? Só porque eu gosto de cavalos tenho que montar neles? Nossa, aquilo deixou-me com um medo terrível. Nunca tinha pensado nisso! Chegar perto de um cavalo, passar a mão nele, MONTAR NELE. Seria possível? Em Curitiba? Onde? Cavalos de quem? E o medo? O que eu faria com ele? Como falar para minha tia que eu estava com muiiiito medo?

Até então eu só tinha visto aqueles cavalos magros dos catadores de papel. Eu nem conseguia olhar. Tinha tanta pena, que dava vontade de levar um pedaço de pão para o cavalo. Por falar nisso, cavalo come pão? Nossa, naquele tempo eu amava tanto os cavalos, mas não sabia NADA a respeito dos cavalos de verdade. Descobri que eu amava a FIGURA do cavalo e não o ANIMAL CAVALO. É uma grande diferença!

Esta minha tia disse que tomaria uma providência quanto a isso. No sábado passou lá em casa e fomos à Hípica. Na verdade, este dia mudou a minha vida, além de saber que foi ela quem me presenteou com o cavalinho das fotos.

Nunca soube o que era uma Hípica. Aos 12 anos a gente pensa que sabe muita coisa, só porque tem um computador e conversa com pessoas de lugares diferentes, mas não conhece a própria cidade. Fiquei encantada!

Aquele lugar parecia mágico. As pessoas andavam e falavam uma língua diferente, era a língua de quem ama os cavalos. É claro que ninguém deu a mínima para a minha presença. Ninguém falou comigo, parecia que eu era invisível. Mas eu não fui até lá ver pessoas, eu quis justificar. Fui ver cavalos e cavalos não falam mesmo!

Paramos no grande cercado já na entrada, onde várias pessoas estavam saltando as “cerquinhas” (mais tarde aprendi que o nome correto era obstáculos). Ficamos observando e eu continuei  encantada! As moças tinham uma postura tão bonita. Os rapazes e até os homens pareciam uns Lords, daqueles filmes de época. Aquele capacete, aquelas luvas. Os cavalos eram belíssimos! Acho que todos eles tomaram banho e foram ao cabeleireiro antes de se apresentarem ali!

É claro que depois também, descobri, ou melhor, aprendi, que eles tomam banho após o trabalho e que aquilo era somente um treino. Eu ficaria mais maravilhada ainda no final de semana seguinte, nos dias de competição.

Em seguida fomos às baias. Nunca pensei que os cavalos pudessem ficar em um lugar tão pequeno e todos ali, sossegados. Mas o medo estava comigo, aumentando, aumentando cada vez que eu chegava mais perto deles.

Um homem todo sorridente com botas de cano longo apareceu. Ele falou com minha tia por muito tempo e foi mostrando as instalações dos cavalos, apresentando os tratadores e certas pessoas que passavam pelo corredor. Quanto a mim, fiquei invisível após os cumprimentos iniciais e dizer que gostava muito de cavalos (no papel e inanimados, esta parte ele não ouviu).

Ele entrou em uma baia e trouxe um cavalo castanho pequeno até perto da minha tia. Eu dei uns 10 passos para trás. Meu coração veio no pescoço e eu senti ele pulsando na minha orelha. O homem deu risada. E já foi falando: “ué? A mocinha tem medo de cavalo? Mas você não gosta de cavalo?” Fiquei muito chateada com isso.

O tratador que estava varrendo a baia, veio perto de mim e disse baixinho:

-Quer que eu te ajude? Eu que cuido desse cavalo. Ele é bonzinho. Olha no olho dele, vem que eu te ensino e eu cuido de você. Não vou deixar acontecer nada com você. Prometo.- E estendeu aquela mão grande e cheia de calos. Gostei dele.

Olhei para ele e peguei naquela enorme mão grossa. Confortada pelas palavras e pelas mãos fortes, fui com ele. O homem sorridente já estava conversando com a minha tia sobre a Europa e nem ligou mais para mim, para o cavalo ou para o tratador.

O Tratador, sim, com T maiúsculo, chamado Juílson, apresentou-me o cavalo, disse para eu olhar na orelha dele. Se a orelha estiver virada para a minha direção, quer dizer que o cavalo sabe que eu estou ali, que ele escutou e está me vendo. Ele  disse que a orelha acompanha o olho. Eu fiquei tão curiosa com essa informação e tão confiante pela presença dele que perdi o medo.

O cavalo chamava-se Well-knit, era pequeno e todo durinho e arredondado. O seu pelo castanho brilhava ao sol. A crina e a cauda um tom mais escuro eram sedosas e bem lisas. Parecia bem sossegado.

Juílson pegou a minha mão e colocou na testa dele. Um arrepio de medo correu pelas minhas costas, mas foi embora quando olhei bem nos olhos do Well-knit. Ele encostou o nariz no meu rosto. Eu quase desmaiei. “Pronto, pensei, agora ele me morde”. Nada. O Tratador deu-me uma cenoura enorme e mandou que eu segurasse para ele comer. Assim que ele abocanhou um pedaço larguei e a cenoura caiu. Juílson riu e disse que eu tinha que segurar, pois o cavalo cortava os pedaços para comer. E o medo dele morder os meus dedos?

E assim foi, eu, o Tratador e o cavalo rindo e nos conhecendo e minha tia e o homem de botas conversando. Depois de muito tempo fomos para casa. No caminho a tia perguntou se eu gostaria de fazer aula de equitação na Escolinha da Hípica e aprender mais sobre os cavalos. Adorei a ideia.

E foi aí que começou realmente a minha vida com os cavalos. Agora com os cavalos de verdade. Aqueles de carne e ossos. Aqueles que interagem conosco, que nos reconhecem, que pedem cenoura quando chegamos perto, que saltam as “cerquinhas”, que nos dão realmente alegria.

Só então aquela paixão que eu tinha por cavalos de filmes, de brinquedos, de fotos, de desenho foi transformada em amor verdadeiro por um ser vivente. Hoje o Well-knit é meu e juntos participamos das competições.

Mas uma lição eu aprendi: quando vejo uma menina nova na Hípica, vou sempre falar com ela, pois lembro do dia em que cheguei aqui e andei invisível por entre as pessoas. E também, nunca vou forçar ninguém a chegar perto dos cavalos, a pessoa pode ter medo como eu tinha.

amazona2

Conto de Neyd M.M.Montingelli.

Neyd nasceu e mora em Curitiba, casada, tem 4 filhas e 1 neto, formada em Psicologia, com especializações em Nutrição, Queijos, Leite e outros cursos na área de animais. Já teve criação de Cabras e um Laticínio. É aposentada pela Caixa Econômica e agora escreve sobre a família, crônicas e contos tendo 8 livros já publicados.

Um cavalo da escolinha

Esse mês a escritora Neyd Montingelli escreveu sobre um cavalo que tem vocação para ensinar os jovens cavaleiros e amazonas. Veja abaixo o conto.

mancha1a

Meu nome é Mancha,  sou um cavalo da escolinha

Meu nome é Mancha, mas eu nasci Archibald  II e fui muito paparicado até eu não atingir a altura e a pelagem que todos queriam e até descobrirem que eu era filho do cavalo do arado e não do garanhão do Haras. Também, meu pai tinha muito mais charme e lábia que aquele metido ensebado.

Bem, não sendo filho do ensebado, não pude mais ficar no cercado chique, com os meninos comportados, comendo aquelas gostosuras. Fui morar lá com a galera do fundão. Pensando bem, era divertido enquanto eu era pequeno. Ficava solto com as galinhas, as ovelhas, as cabras. Podia comer o que quisesse. Ganhava um pouco de uma ração bem ruim, mas eu já tinha me fartado de comer o tenro capim dos campos e nem me importava, pois eu era livre e andava por tudo.

Quando cresci, foi um pouco triste e dolorido. Uns homens de cara amarrada vinham todos os dias e me batiam com umas varas só para poderem me montar. Eu não queria, mas tive que deixar, afinal eles é que mandavam, foi o que o aprendi a duras surras. Depois acostumei. Achei melhor ficar assim, bem mansinho, daí ninguém judia de ninguém. No final até dão uns agrados ou comida melhor.

E os anos passaram. Eu puxei arado, carroça, juntei gado, levei gente, trouxe gente, fiquei na chuva, fiquei no sol, comi muito, comi pouco,  menos do que mais, namorei e até tive um filho. É a vida de um cavalo de trabalho. Um dia veio uma mulher e ficou me examinando. No dia seguinte eu fui parar em uma Hípica na cidade. Achei muito estranho.

O lugar era grande, cheio de cavalos, só que eles não ficavam soltos como lá no Haras. Eles ficavam nas baias. Eu também fui morar em uma baia. Um quartinho pequeno forrado com cepilho. Em um canto tinha ração cheirosa e no outro tinha capim seco mas era muito bom. Comi quase tudo. A água era fresca, igual do rio e por mais que eu tomasse não acabava. Gostei do lugar.

Fiquei ali, sem fazer nada, só comendo. Estranho.

Um homem veio e me levou para um outro lugar e me deu um banho. Nunca tinha tomado banho assim. Só tinha entrado no rio. Banho com escova e sabão, nunca. Gostoso! Fiquei no sol, secando.

Depois, colocaram ferraduras novas, foi um alívio. Aquelas velhas doíam meus cascos, pois estavam gastas. Não carreguei nada, não puxei nada. Estou achando estranho.

No dia seguinte um outro homem esquisito veio me buscar. Falava comigo como se fosse meu amigo, gostei dele. O cara que me deu banho já era meu chapa e esse agora também. Estou gostando daqui!

Os dois colocaram uma sela diferente em mim. Bem menor, mais leve, nem apertava. Lá no Haras eles apertavam tanto que doía a pele, tinha até um cobertorzinho em baixo, ficou macio. Eu abri a boca para receber o bridão e para minha surpresa não machucou nada. Era confortável.

O cara novo foi falando comigo e me levou pelo corredor entre as baias. Só então eu fui conhecer os meus colegas. Fui olhando os outros cavalos meio de lado, pois ainda não conhecia ninguém. Só com o tempo é que fui fazer amizade com todos.

O cara novo, descobri, o nome dele é Professor, disse que eu vou me chamar Mancha, por causa da marca branca na minha testa. Gostei do nome. Ele até mandou escreverem o nome no meu quarto. Eu estou chique mesmo.

Chegamos em um grande cercado. O Professor montou e começamos a andar, andar, andar. Eu obedeci em tudo. Ele gostou. Dia após dia, ele me ensinou muitos truques: passar por umas varas no chão, pular umas cerquinhas, ir para frente, parar, seguir os outros cavalos, obedecer aos comandos. Gostei de tudo. Depois de cada ordem que eu acertava ele passava a mão no meu pescoço e isto era muito bom. Era divertido fazer aquelas coisas que ele chamava de trabalho. Eu entendia por trabalho outra tarefa.

Depois de um tempo ele trouxe uma menina de cabelos encaracolados perto de mim. Gostei da menina. Ela olhou bem nos meus olhos. Passou a mão no meu pescoço e na minha testa. Depois o Professor ajudou a menina a montar e ela passou a fazer aqueles exercícios que ele fazia. Era gostoso trabalhar com a menina porque eu sentia o amor dela por mim.

Depois de um tempo, um menino bochechudo também veio montar. Depois mais outro, mais outro, mais outro. Todos gostavam de mim. O Mancha é o cavalo das crianças. Iebaaaa.

O tempo já passou. Já faz muitos anos que estou aqui na Escolinha da Hípica. Ainda sou o Mancha das crianças. Nas competições sou disputado e o Professor tem que fazer sorteio entre as crianças para saber quem vai saltar comigo, senão eu teria que saltar 10 vezes no mesmo dia. Por mim tudo bem, mas já estou ficando velho e há o desgaste né?

Sabe o que eu sinto? As crianças me amam, amam, brigam por mim nas competições, tiram fotos, ganham troféus e medalhas comigo e depois quando ganham os seus cavalos e sobem para o outro nível, esquecem do velho Mancha. Nunca mais vem aqui dar um “OI”. Nunca mais vem aqui trazer uma cenourinha, uma maçãzinha ou tirar uma fotografia depois de mocinhos ou adultos.

Mas, é a vida né? É o crescimento. Essas crianças passaram de fase. Acho que o Mancha aqui ajudou e eu vou continuar a ser como sou: um cavalo feliz em contribuir para crescimento da carreira do atleta Hípico.

 -Vai meu menino e minha menina, vai trotando para o seu futuro que o Mancha torce por você!

mancha1

Conto de Neyd M.M.Montingelli.
Neyd nasceu e mora em Curitiba, casada, tem 4 filhas e 1 neto, formada em Psicologia, com especializações em Nutrição, Queijos, Leite e outros cursos na área de animais. Já teve criação de Cabras e um Laticínio. É aposentada pela Caixa Econômica e agora escreve sobre a família, crônicas e contos tendo 8 livros já publicados.

Fotos: Jota Design por JuRibas
Modelos: Fabiana Amaral e SS Neon

A menina que sonhava
com um cavalo

O Hipismo&Co agora tem uma seção de contos escritos pela colaboradora Neyd M.M.Montingelli. O primeiro conto é sobre uma menina que sonhava em ter um cavalo.

menina_sonho1

A Menina que sonhava com um cavalo

-Sonhei com um cavalo preto brilhante que estava na praia e a água espirrava enquanto ele galopava pelas ondas. Eu chamei e ele veio pertinho de mim. Senti o bafo dele no meu rosto.- A menina falava sorrindo.

-Credo mãe, eu não aguento mais a Melany. Ela fala tanto de cavalo que até enche. Agora vai dar para sonhar com esses bichos? Se fosse eu falando do gato que eu quero vocês já estavam me criticando…

Essa é a discussão cada vez que a família está reunida e Melany vem falar de sua verdadeira paixão pelos equinos. A irmã Bruna fica irritada porque todos prestam atenção nos desenhos, nos recortes, nos sonhos da menina de cabelos compridos e olhos que sorriem. A jovem não entende. Por que escutam a pirralha e nem dão atenção ao que ela quer?

-Eu queria apenas um gatinho. Ei, vocês, família, olha eu estou aqui, Bruna, lembram? A outra filha. Deixa, esqueçam, ou melhor, continuem como está.- Bruna levanta-se e sai da sala batendo o pé, trancando-se no quarto.

O pai e a mãe apenas entreolham-se. No caso de Bruna, discutir não era a melhor solução. Eles acharam melhor o silêncio. No dia seguinte talvez Bruna mudasse de opinião a esse respeito. Ou não.

O sábado amanheceu horrível. Chuva e frio como era comum nessa época do ano em Curitiba. Lá pelas 10 horas o pai volta do centro da cidade com uma caixa e um embrulho e deixa na cozinha. A mesa estava arrumada para um grande café da manhã. As meninas entram na cozinha e até se espantam em ver aquela fartura.

-Nossa, estamos comemorando o quê? –Bruna senta e espera a resposta.

Os pais começam a servir pães, bolos, suco e a conversar animadamente. Todos estão contentes. O pai levanta e entrega para Bruna a enorme caixa. Quando ela abre, encontra um filhote de gato persa branco. Ela nem sabe o que fazer, chora, ri, abraça o pai, a mãe, a irmã. O embrulho era para Melany, dentro o livro de Monty Roberts, O homem que ouve cavalos. Depois de longos minutos paparicando o gato, leitura rápida do livro e em meio a alegria das duas irmãs, os pais tem algo a dizer.

As meninas nem notam, mas a notícia não será muito atrativa para duas meninas de cidade grande . Eles vão morar em uma fazenda, em Tibagi, a 200km de Curitiba. O pai será o administrador financeiro desta propriedade rural, com um salário muito bom, casa para a família e todos os benefícios. Os presentes foram o suficiente para tornar a informação menos ruim.

As semanas passam e logo eles estão acomodados na enorme casa em meio a quilômetros de pastagens, som de cachoeira, piados, latidos. Bem ao longe, mugidos do gado.

As promessas de uma vida melhor, sem os sacrifícios, as economias, deixam a família quase conformada com o novo ambiente. Os sons são completamente diferentes, o colorido é outro, o ar até dói quando é respirado, de tão puro, a água é doce demais e já sai gelada da torneira; as frutas tem um sabor de quero mais e estão ali, na porta da cozinha.

O ônibus da fazenda passa cedinho, leva todas as crianças dos funcionários até o Colégio Estadual ou para a Creche Municipal. Ao todo são 14 crianças dentro da fazenda.
Melany adorou a escola. Fez muitos amigos e gostou muito da professora. Para Bruna estava sendo difícil o entrosamento, mas um dos colegas da turma estava conseguindo conversar com ela aos poucos.

Melany chegava em casa cada dia mais feliz e com novidades. Agora era a vez das galinhas. Estava apaixonada pelas galinhas e pintinhos da fazenda. Passava a tarde na casa dos funcionários procurando galinhas que estivessem com seus pintinhos pelos quintais.

Nesta busca, entrou em um barracão velho atrás da casa do mais antigo funcionário da fazenda porque escutou um barulho e achou que era uma galinha choca. Foi bem quietinha e abriu uma pequena porta nos fundos. O enorme barracão estava vazio e limpo. Estranhou em ver aquele desperdício de espaço, tão bem cuidado. Sentiu cheiro de estrume, de pelo de animal, mas não viu nenhum. O barracão era arejado e claro, bem alto, com apenas um cercado em um canto. Viu alguns montinhos de estrume de cavalo:

-Ah, então é daí o cheiro. Mas cadê o cavalo? Será que está lá fora pastando? – Pensou a menina.

Deu mais alguns passos quando uma nuvem de poeira levantou e do canto, por de trás do cercado, surge um enorme cavalo preto bufando como um monstro, investindo contra ela. O susto foi enorme! Ela apenas abaixou-se e ficou acocorada, com as mãos na cabeça, enquando a fera negra saltava e coiceava a sua volta. Passados alguns intermináveis segundos. O cavalo parou e voltou para o cercado. Melany nem pestanejou. Levantou-se, correu para a pequena saída. Fechou cuidadosamente a portinha e ficou ali, com o coração saltando mais que aquele cavalo. Sentou-se em uma pilha de troncos ao lado da parede para poder respirar melhor.

Estava com a cabeça encostada na parede quando sentiu o bafo do cavalo na sua orelha, por entre as frestas da parede. Novamente o seu coração veio na boca e ela saltou dos troncos. Ficou ali olhando a parede. Viu a silhueta do cavalo. Os dois ficaram se encarando.

De repente o cavalo vira-se e sai dali.

A menina vai mais perto e fica olhando pelas frestas. A cena que vê é maravilhosa! Um cavalo preto, enorme, com cauda e crina muito longas e emaranhadas, saltando e correndo naquele espaço vazio do barracão. Lindo, lindo.

-Nossa! É o cavalo que aparece nos meus sonhos. É ele sim.-Melany fala baixinho.
Ela ficou ali admirando aquela maravilha negra até o sol ir esconder-se atrás do morro e o céu ficar tão vermelho que parecia pintura de criança. Ao dar-se conta disso, suas pernas começaram a doer pelo contato com as tábuas ásperas.

-Tchau negro dos meus sonhos. Dessa vez vou sonhar com você de verdade.-A menina fala com o cavalo, despedindo-se.

O cavalo para com os saltos e olha em direção à menina, como se soubesse que ela estava lá e vai para o cercado. O show acabou. Melany vai contente para casa.

À mesa do jantar, cada um tem uma novidade para contar e todos esperam que a menina comece a falar dos pintinhos, pois foi isso o assunto dos últimos dias.

-Eu vi o cavalo dos meus sonhos.-Melany fala sonhadoramente.

-De novo não! – Bruna, já vai falando em tom bravo.- Essa menina vai recomeçar? Achei que tinha sarado dessa DOENÇA.

-Pode parar Bruna. Deixa a sua irmã.-A mãe intervém.

-Chega todo mundo. Amanhã vocês contam, hoje eu quero ver o Atletiba bem sossegado.-

O pai levanta e vai para a sala, esperar pelo grande jogo de futebol.

As três ficam em silêncio na cozinha, lavando os pratos.

Já no quarto, Melany busca pelo livro de Monty Robert que ganhou do pai antes da mudança. Já tinha folheado e lido alguns capítulos, mais para dizer ao pai que leu do que por curiosidade. Agora era diferente! Ela precisava do que estava ali.

Aconchegou-se entre as cobertas e deu início ao seu estudo: como domar um quase garanhão negro, tendo apenas 10 anos, nenhuma experiência, muito medo e uma paixão enorme por aquela montanha de músculos. Adormeceu sobre o livro.

Os próximos dias foram divididos entre escola, rápidas brincadeiras com as crianças da fazenda e longas horas de observação ao cavalo. Não se atreveu mais a entrar no barracão, viu que foi uma loucura, pois não conhecia o animal e poderia ter se machucado.

O que acontece nos filmes é uma coisa, na vida real é outra, bem diferente.

Percebeu que um dos peões da fazenda vinha quase todos os dias tratar do cavalo. Trazia ração, feno e recolhia as fezes. Como ele fazia? Chamava o cavalo para o cercado, e colocava cenouras no coxo por uma abertura na parede. Enquanto ele comia puxava uma corda que fechava o cercado que o deixava preso. O peão entrava pela porta da frente e limpava o barracão, juntando os excrementos e lavando os coxos e enchendo de ração muitas vezes ficava observando o cavalo e admirando a sua beleza. Depois saía e abria o cercado.

Um dia Melany foi atrás dele e perguntou do cavalo. O peão foi resistente em falar, mas era uma menina e foi contando:

-É do patrão. Nasceu aqui. Tem 3 anos e é filho da égua que o filho dele montava. A égua pariu no dia que o filho dele foi embora, e ela morreu logo depois. Ninguém nunca conseguiu domar esta fera. Só eu venho tratar. O patrão não deixa mais ninguém vir aqui depois que não conseguiram domar o bicho. Disse que ele vai ficar aí até morrer. Dá uma pena!

Melany foi pensativa para casa. Realmente era uma história triste. Sentou-se à frente do computador e passou a pesquisar sobre cavalos indomáveis. Viu vídeos do casal do Mato Grosso que dá aulas para os pantaneiros; de Doma Índia de várias partes do Brasil e do mundo; Doma Tradicional, a famosa judiação com chicote, varas, saco na cabeça, amarrando as pernas, e mais algumas aberrações que fizeram a menina chorar na frente da tela. Pronto! Ela já estava satisfeita. Com as anotações no seu caderno, poderia começar a trabalhar.

A sua maravilha negra não tinha nome, então resolveu batizá-lo: Czarny, negro em polonês, era o nome do galo da avó, assim ninguém iria desconfiar com quem estava brincando à tarde.

Todo dia fazia seu trabalho de conquista e aproximação com Czarny. Abriu uma fresta maior na portinha onde cabia toda a sua cabeça para dentro do barracão, arrumou uma cadeira com as toras e uma cobertura com um maderite, para os dias de sol e chuva.

Ficava ali, conversando com o cavalo enquanto ele corria, pulava, comia, bufava, coiceava, investia contra a parede. Um dia levou cenouras e jogou lá para dentro. O cavalo nem ligou. No dia seguinte notou que ele comeu. Jogou mais perto, cada dia mais perto. Até que um dia, com toda a coragem do mundo, ficou segurando uma enorme cenoura no buraco.

Czarny pegou a cenoura enquanto ela recolhia a mão rapidamente.

Levou maçãs, rabanetes, beterrabas, goiabas, cada dia uma fruta ou verdura diferente. Czarny ficava esperando pela guloseima do dia. Cavalos aprendem rápido. Crianças também. Ela não deixava de pesquisar na internet. Pediu que o pai comprasse os outros livros de Monty Robert e mais alguns com temas relacionados.

Cada vez que pegava as frutas e verduras na cozinha dizia que iria levar para o Czarny. A mãe achava que ela havia encontrado um galo igual ao da avó e agora estava alimentando-o e até ajudava a montar a cesta. Chegou a perguntar onde estava o Czarny, a cor e de quem era e a menina respondeu a todas a tudo sem mentir:

– Ele fica preso no barracão grande lá perto do rio, é inteiro preto e é do patrão. Sabia que ele não deixa ninguém tirar o coitado de lá?

Passou o outono, o inverno e Melany estava cada vez mais amiga do gigante negro. Agora já podia entrar no barracão pela portinha e sentar-se pelo lado de dentro sem perigo algum. Algumas vezes arriscava-se a andar rente à parede e a ficar em pé, frente a frente com ele. Um dia foi ao galpão dos peões e surrupiou uma cabeçada bem velha. Levou para casa e lavou bem, nem sabia porque estava fazendo isso, era instintivo.

Colocou um caixote perto da portinha, assim, subindo nele, ficava na altura da cabeça do cavalo. Mais alguns dias e conseguiu colocar a cabeçada. Outros dias e já agradava a testa e até as orelhas. O tratador nem reparou que ele estava com a cabeçada, pois prendia o cavalo no cercado cada vez que fazia a limpeza e nem se atrevia a chegar perto.

Mais um furto e Melany arranjou um cabo. Com a troca de carinho e conversa, prendeu o cabo curto na cabeçada. Czarny estranhou no início, pois a ponta batia-lhe no meio da coxa e a cada balanço ele levava um susto. Levou uns dois dias para ele se acostumar. Melany começou a puxar delicadamente pelo cabo, ao mesmo tempo que acariciava-lhe a testa. Quando o seu comando de esquerda e direita era aceito sem solavanco, ela agradava.
Desceu do caixote e passou a andar pelo barracão, agora sem medo. Às vezes parava e o cavalo parava também. Pegou o cabo e ele deixou, andou com ele, puxando pelo cabo, por todo o barracão, conversando, parando, fazendo carinho na testa, nas orelhas, no pescoço nas coxas.

O tratador naquele dia resolveu vir cuidar do cavalo mais cedo e chegando perto do barracão escutou as risadas da menina. Ficou aflito e correu para a janela do cercado. Não acreditou no que viu: uma menina de longos cabelos caminhando tranquilamente DENTRO do barracão, puxando aquela fera por um curtíssimo cabo preso a uma cabeçada colocada no cavalo?

Primeiro: quem colocou a cabeçada no cavalo mais xucro da fazenda? Segundo: desde quando este monstro aceita ser conduzido por alguém? Terceiro: como ela está viva ainda?
O tratador ficou ali horrorizado olhando a cena. A menina andava, parava, conversava com o xucro, ele abaixava a cabeça, ela acariciava a testa e as orelhas dele, eles andavam mais um pouco, ela ria. Depois de uns minutos, a menina deu um beijo no cavalo, tirou uma maçã de um pacote e ficou segurando, o cavalo pegou com os lábios sem nem encostar nas mãozinhas dela. A menina desapareceu por uma pequena porta e o cavalo transformou-se no monstro novamente. Pulava, coiceava, bufava e corria pelo barracão. Era outro cavalo. O rapaz assobiou chamando por ele e ele jogou-se contra a parede da janela. O tratador fechou o cercado, trancando a fera. Fez o seu serviço ainda não acreditando no que tinha visto.

No dia seguinte foi lá para ver se a mesma coisa acontecia novamente. Esgueirou-se entre as folhagens e ficou espreitando pelas frestas. E lá estava a menina, sentada no caixote brincando com as orelhas daquele brutamontes. Desta vez ela estava com um cabo mais comprido, bem comprido que depois de trocar pelo curto, colocou um caixote no meio do barracão, subiu nele e ficou rodando com o cavalo, como em um redondel. O monstro obedecia, parecia um pônei. Nem uma corcoveada, nem um coice, nem uma bufada. Nada. A menina ria, conversava, virava para a esquerda, para a direita, mais perto, mais longe. Depois, o cavalo ganhava frutas, um beijo e ela ia embora e ele se transformava na fera de sempre.

Assim foi por longos dias, o tratador não contou a ninguém, com medo de ser repreendido por ter deixado uma menina aproximar-se do cavalo do patrão. Era melhor dizer que não sabia de nada.

Um dia ele viu o acidente.

Naquele dia ensolarado de setembro, ela puxou o cavalo o mais perto do caixote e acariciando as pernas, o pescoço jogou-se de atravessado sobre o cavalo. Czarny deixou. O tratador estava aflito olhando pela fresta. Melany tinha visto tantos vídeos de Doma que achava que sabia o que estava fazendo. Fez várias vezes este movimento e depois montou nele. Só tinha um detalhe: ela não sabia montar. Nunca havia montado. Não sabia como ficar em cima de um cavalo, onde colocar as pernas, os joelhos, onde segurar. É o grande problema de quem nunca montou. Assim que o cavalo deu alguns passos ela desequilibrou-se e caiu, sorte que foi sobre o feno. O cavalo nem assustou-se, apenas desviou dela e ficou ao lado. Ela estava com muita dor no braço, mas levantou-se e ainda teve forças para desengatar o cabo e dar umas goiabas para ele.

Do outro lado do barracão, o tratador estava branco. Ele foi correndo até a portinha.

-Eu vi tudo. Você é louca menina. Você se machucou? Será que não quebrou o braço? O patrão vai me matar quando souber que eu deixei você entrar aí com o monstro.

-Não conta nada, por favor.-Melany pede.- Czarny ainda não está pronto. Eu preciso montar ele.

-Como é o nome que você colocou nele? Zane? Vocês viraram amigos né? Olha, não sei como você conseguiu, mas esse bicho aí é fogo viu?- O tratador estava nervoso com a queda da menina.-Eu não conto nada, pode deixar.

Em casa a menina disse que caiu no barracão enquanto brincava com o Czarny, novamente sem mentiras. Ficou com o braço roxo. Nada que alguns sprays e carinho da mamãe não cure, depois de muitas recomendações, é claro.

No dia seguinte, estava lá novamente, mas não tentou subir no cavalo, pois o braço doía. Limitou-se a puxá-lo pelo cabo curto, contando os pormenores dos cuidados da mãe.

O tratador está esperando por ela na saída, com uma proposta: queria ensinar-lhe a montar.

Mas tinha que ter o consentimento dos pais. Não queria confusão para o lado dele.
Foi duro.

Tanto o pai como a mãe estavam fazendo um cavalo de batalha. Mas depois de muito insistir, a persistente menina de olhos que sorriem, conseguiu. Com uma condição: a mãe estaria presente em todas as aulas, com medo da menina ficar perto daqueles cavalos. Mal sabia…

E os dias passaram. No começo de novembro, Melany já trotava em qualquer cavalo que o tratador a colocasse. A mãe até já desistiu de acompanhar as aulas.

No barracão, a amizade com Czarny estava cada vez melhor. Ela conseguia montar, trotar e até galopar. Neste tempo todo, com a ajuda de Melany, o tratador conseguiu fazer amizade com ele e entrava no barracão tranquilamente. Colocaram cabresto, sela e freio. As ferraduras foram trocadas com muito cuidado.

Na tarde de um dia chuvoso daquele final de dezembro, Melany se encheu de coragem e montada no lindo cavalo, saiu do barracão. Todos estavam em suas casas arrumando a festa de passagem de ano, ninguém ia notar um cavalo andando por lá.

Era a primeira vez que Czarny saía do barracão desde que o patrão fez aquela tentativa de domá-lo quase 2 anos atrás. Ele estava nervoso, dava para ver pelas orelhas que se movimentavam sem parar.

Melany, acalmava o amigo afagando o seu pescoço e conversando com ele. A chuva caía, escorrendo pela jaqueta impermeável dela e entrando em seus olhos. O pelo, a crina emaranhada já estava encharcada e cada vez que o cavalo balançava as orelhas gotinhas de chuva iam direto na boca da menina. Ela ria e fazia piadinhas. O barulho das patas nas poças d’água também a divertiam. Os dois foram passear lá atrás da plantação de amoras.
Melany estava se divertindo e o cavalo há muito preso também. De vez em quando apressavam o passo em meio às árvores baixas. Outras vezes paravam, só para admirar a beleza das frutas. Em uma pequena clareira com um banco, Melany parou e foi colher algumas frutinhas negras. Sentou-se no banco molhado e comia uma fruta e dava outra para o cavalo. Tudo entre risos, conversas e afagos.

Czarny começa a ficar nervoso e a bater com a pata no chão e bufar. Melany fica em pé no banco e olha em volta segurando as rédeas. Parado em meio às árvores está um homem todo encharcado. Parecia que ele já estava ali há muito tempo. A menina monta no cavalo e já pensava em sair correndo dali quando o homem falou:

-Este é o cavalo do barracão? O cavalo xucro? Você é a filha do Gilson?

Ela assentiu com a cabeça e percebeu que era o patrão. Seu coração veio na boca. Medo. E agora? Será que ele iria ficar tão bravo a ponto de despedir o pai dela?

O cavalo não parava. Pisoteava a lama, andava em círculos. Melany abraçou o pescoço dele, fez carinho nas orelhas e ele acalmou-se.

O homem sentou-se no banco molhado. Seu rosto era triste. A chuva já havia parado, mas as lágrimas continuavam a rolar pela face, ensopando mais o colarinho da camisa azul.

-Meu filho gostava de vir aqui. Ele tinha dois caixotes de madeira neste lugar. Para sentar, comer amoras e maçãs no verão, mimosas no inverno e depois usava o caixote para poder subir na égua. Os dois ficavam horas neste lugar. Por isso mandei fazer este banco, em homenagem aos dias felizes que meu filho passou aqui na fazenda. Olhe.

O homem triste passou a mão no banco tirando as folhas para mostrar a inscrição:

“O menino que sonhava com um cavalo viveu anos felizes com sua Jinflor” ao lado de um desenho de um menino montado em um cavalo negro.

-Este cavalo é filho da égua Jinflor. Ele nasceu nervoso, nunca conseguimos domá-lo. Todos os peões tentaram e ninguém conseguiu. Resolvi deixá-lo preso para sempre, igual a minha dor pela perda do meu filho. Sempre vou lá ver esse cavalo e tenho a impressão que é uma mensagem dele para mim. E hoje vejo você aqui, no mesmo lugar, fazendo as mesmas coisas, com o mesmo cavalo…-O homem chora copiosamente com o rosto entre as mãos.

A menina larga as rédeas e vai até ele. Seus braços o envolvem em um carinho sincero. Ela ficou comovida. Não sabia da história, apenas foi andando pelos caminhos das árvores e aquele lugar é tão bonito que sentiu vontade de sentar e ficar ali com seu amigo, comendo as frutas e conversando.

-O senhor não está bravo por eu ter tirado o Czarny do barracão e por eu ter vindo aqui?

-Não, minha pequena, claro que não. Você conseguiu uma proeza ímpar. Não sei o que você fez, mas domar esse cavalo foi a coisa mais espetacular que eu já vi. Como é o nome que você deu para ele? Czarny, negro. Pois este será o nome dele, do seu cavalo.

O homem triste mudou a fisionomia. Olhou para a menina e a abraçou, agradecendo.

Chegou perto do cavalo e o afagou na testa. Os dois ficaram ali agradando o cavalo e conversando animadamente. Ela contou que também sonhava com um cavalo. O enorme animal estava tranquilo, aquele homem não era ameaça, era amigo.

Para o patrão, o cavalo fora do barracão, domado, nas mãos de uma criança era a mensagem do filho que foi embora: “quem sonha com cavalo só pode ter amor no coração e nas atitudes”.

FIM

menina_sonho2

Conto de Neyd M.M.Montingelli.
Neyd nasceu e mora em Curitiba, casada, tem 4 filhas e 1 neto, formada em Psicologia, com especializações em Nutrição, Queijos, Leite e outros cursos na área de animais. Já teve criação de Cabras e um Laticínio. É aposentada pela Caixa Econômica e agora escreve sobre a família, crônicas e contos tendo 8 livros já publicados.

Fotos: Jota Design por JuRibas
Modelos: Beatriz Mohr e Luck Jolly

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...